Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

sexta-feira, 29 de março de 2013

Fim do mundo

Algo que me parecia manchete para vender, ameaça aos cristãos ou apenas polemização barata se torna palpável. Ninguém mais lê, ninguém mais tem tempo de ouvir os outros, tudo parece balela. E agrava isso o fato de estarmos presos a maquinas de uma forma dependente. O que era mero auxilio às relações pessoais as massacra. Não nos abraçamos, curtimos. Não beijamos, mandamos bocas virtuais. Nossas brigas passam em boa parte a serem escritas (isso quando não surgem da interpretação sugestiva dessa própria escrita de palavras secas). O amor se vai. As tradições se vão. Ninguém aprecia mais nada que não é rápido ou imediato. Desde sexo a ensinamentos tudo deve ter o tempo do hoje, sem prolongamentos. Os sensíveis viraram babacas ou ao, ao menos, parte de um passado remoto, que não se tem tempo para conhecer. Poesias passam a ficar ultrapassadas para uma geração que progressivamente perde a capacidade de conhecer os sentimentos expostos ali. Vejo não longe o dia em que o homem se torna uma nova espécie. Robotizada não só no físico, mas em sua psique. E o mundo será deixado para lá, porque é pouco para eles, porque é muito para eles.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

27.1.2013

De repente. Precisamente, 27.1.2013: tomei uma decisão. 
Não sei se estou certa, mas agora é o que me parece. 
Também não posso dizer se será para sempre, porque junto com o "nunca", essas palavras ganharam, ao longo do tempo, os exatos contornos que nos escapam, aos vinte e poucos. 
Fato é que hoje retomo em mim uma parte que morre. Morria. Preciso aprender a conviver novamente com sua presença ou a franquear com mais vitalidade essa tentativa de resgatá-la.
Essa metade doce, infantil, covarde, que trazia a mim o brilho natural dos olhos. Exatamente esse excerto ignorante que me permitia adentrar em águas perigosas, barrentas, límpidas, enfim nas águas que eu quisesse adentrar, sem ponderar se havia perigo, barro, peixes, ou qualquer outra variante. Mera vontade, simplesmente  sem carecer da metáfora de limpeza.
Talvez seja apenas uma simbologia. 
Evidentemente, estou confusa.
Para mim, apenas fez-se cabível como o triângulo vermelho na casinha com recortes de várias formas. Pareceu assim óbvio que ali era o espaço dessa figura e não de outra. 
Mas agora a única certeza que tenho é que o mundo me resignou, seguindo essa metáfora das águas. Não amo mais e preciso fazer alguma coisa por isso. E o meu desisso, antiisso, anisso é o egoísmo, que, hoje, toma forma concreta, em mim - e em uma série de cobaias observadas criteriosamente - por meio dessa instigante mundana, de gozo pessoal, de irresponsabilidades mil perante meu corpo, perante a minha alma.
Passei a não ter o natural colorido nos olhos e busquei-os monocromaticamente, em método destrutivo, mas construtivo ou construtivo, mas destrutivo. Ainda, como se vê, pairam dúvidas. E incertezas porque há uma grande possibilidade de ter matado em mim um fragmento que não sei se era meu ou de outrem, se era fruto de determinismo social, necessidade de individualização, desespero mesmo, ou se veio comigo latente, formando-me tal qual a outra metade, traduzindo-me um ser meu que precisava gritar.
Um fragmento, contudo, inegavelmente, divertido... Mas que, ao cabo do riso, desfeita a multiplicidade de seres, tornava-se, de certa forma, contraditoriamente, obsessivo.
É como se em busca do mais, você pudesse ter o menos e hoje essa troca não me parecesse justa.  Mais do que isso: parece-me que ela abre uma caixa de possibilidades e riscos que não estou, ao menos na atual conjuntura, pronta para enfrentar.
Sangue suga. Sangue suga.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Vocês, que são eu

Eternizei esse amor na minha sobrevida. Calei em mim os mais dolorosos gemidos para que não sofressem com o uivo do meu lamento. Refleti na cara manchada pelo tempo desfeito um sorriso pálido de saudade, igualmente parecido com um ar curioso, para fazer-lhes crer ser ânsia de dias vindouros. Travesti minhas lágrimas em emoção da lembrança, para que não percebessem que era tristeza mesmo. Chorei escondida no meu universo um pranto interior. Falei para mim que resistiria por vocês, mas está difícil, cada dia mais difícil. Resta-me orar, para que eu consiga abstrair da concretude o desespero abstrato, mas real, que se me faz morrer todo dia, não gostaria que os fizesse. Pois se velo o meu corpo, mato para sempre a única fidedigna expressão de vocês aqui.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Vilã

Quanto tempo sem sentir esse submundo de nós mesmos. Dias e dias vividos sem conhecimento dessa possibilidade. Lembrança talvez melhor se ajustasse. Distante do vasculhar do âmago, não percebemos os vícios criados, os erros passados, os traumas. Desenvolvemos paradigmas absolutos e não nos colocamos mais diante de algumas situações em que ousávamos mergulhar. E a justificativa para isso é nada além de medo. Nada. Nem sinal de novos tempos. Cada novidade mal vista em nossos módulos sociais é meticulosamente afastada. Mas deixei a paixão tirar a razão e chorei. Chorei muito só que sem alarde. Fingi para mim estar no auge do meu conformismo, quando lá dentro a mistura de tudo me afligia com tal intensidade que eu tinha medo de continuar. Queria ele, mas temia aquilo. Fui covarde. Estou sendo agora, porque não tenho forças para viver isso. Despeço-me com a mesma coincidência do encontro no desencontro. Amar é preciso, mas sofrer não.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Diário de um paulistano

Entraram no meu carro. Pegaram tudo. Objetos de pouca valia e algumas futilidades mundanas. Mas furtaram algo que não tinha preço. Levaram minha dignidade junto com as mesquinharias baratas. Mal sabem o preço dessa mercadoria. Surrupiam-na sem conseguir aferir o valor do ganho. E pior: o valor da perda, que eu, todavia, sinto no bolso da vida. Exagero? Exagero é não se importar mais. É passar por ali e acolá e achar tudo normal. Mendigos a revirar as latas de lixos, em busca de restos. Bichos. Somos bichos, sem qualquer dor de consciência. Cidade paulistana, como podes ser tão cruel com teus cidadãos? Os que  furtam e os que são furtados? Os que comem e os que são devorados?

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Tropeço


Não vou mentir. Hoje, minha alma é lágrimas. Minha voz é contida. Meu grito, sussurrado. Não cuidei de manter tudo de bom em mim e fui no fluxo do mundo de maldades, chicanas, desconfianças. Senti o turbilhão de más energias me puxar essa semana e eu não soube segurar minha essência límpida. As consequências sempre são maiores do que o tempo presente e é triste saber que, por mais que se perdoe, por mais que se retome, cicatrizes marcam a vida daqueles que machuquei ou perante os quais não emanei meus melhores reflexos. Que a próxima semana seja melhor. e que eu não me perca nos problemas do mundo, nas provações de todo dia...

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Modernidade

Vivemos a crise da super socialidade. Não estamos mais só. Nunca. Não paramos de interagir. E deixamos de intragir. Subíamos elevadores refletindo sobre qualquer coisa que seja. Hoje percorremos esse ínfimo caminho, teclando, postando ou apenas olhando para esse novo aparato. Numa mesa de bar, parte das risadas são compartilhadas instantaneamente com o resto do mundo, enquanto poderiam caber no apenas serem sentidas. Parece que para que bastem ao sujeito que ri, é preciso disseminação. As pessoas não estão mais conectadas com o mundo a sua volta, por mais contraditório que isso pareça ser. Não vivemos nem lá nem cá e a simplicidade dos bons momentos esvairem-se na mutabilidade do dividir. Nenhum instante fica conosco. Tão-só conosco. Tenho medo da hipertrofia cerebral desse fluxo irreversível. Cagar que era uma coisa solitaria. Nem isso mas eu faço só. Só nos resta o banho, enquanto nao forem a prova d'agua essas malditas caixas de pandora. Sempre me disseram que a água era a salvação do mundo!