Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

domingo, 24 de maio de 2015

O pecado

Reparei-me diante do espelho. Silenciosamente rugas e fios brancos. Pareciam ter brotado há poucos segundos. Talvez com o progressivo desbotar da minha ousadia, que desmilinguida escorria preto aguada feito rímel em fim de filme triste. A psicologia sim passou a compor meu álbum da vida, depois de eu, enfim, perceber o grão a mais do debulhar de risos desesperados e de lágrimas desavisadas. Dei-me deveras tardiamente conta do caldeirão das minhas contradições. Veio, contudo, e me felicito. Assustei-me diante de algo que tocou meu ombro. Quando virei, ainda que não entendesse aquilo tudo, disse ao ar "que susto", como se me corrigisse. Não havia ninguém. De cima da minha solidão, todavia, caiam folhas de caderno manuscritas. Sabia ser um devaneio, mas dei azo à dramatização cenográfica da minha tristeza. No chão frio e riscado pelo saltos circunflexos vi páginas espalhadas de um livro que eu conhecia, algumas delas com as pontas ainda picotadas como se a raiva tivesse mãos. Quando me dei conta do sonho em vida, procurei com o coração dilatado outras páginas, mas lembrei que foram subtraídas sorrateiramente por um ente chamado Deus, que eu passei a respeitar muito. Amores foram decapitados pela mão arteira do destino, ou talvez pelo facão que se depositava em sangue na minha mão agora trêmula, após atinar ali dos óbitos que cometi eu mesma. O velho eu diria que foi culpa. O novo apenas sabe do dolo. Cai o facão, suja as páginas, mas não suja a mim, pois o sangue bate e torna, como se eu fosse impermeável. O meu corpo, contudo, por dentro padece, ainda que fora o retinto do rubro não se enuncie. Aliás, como sempre. Abro a boca para um berro que não sai e me impeço, enfim, esse devaneio por desespero de continuar. Saio dali vacinada, com a certeza de que não mais pecarei. E volto a pecar dali 2 dias

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Planeta dos Macacos

Roda Gigante de Recalques, Moralismos e Outras Coisitas mais. Viver em Sociedade é achar-se independente, sem ser. E crer na singularidade, sem ter. É ousar e perceber-se no lugar. Ao se questionar uma coisa, convalida-se outras tantas. Caso contrário, nada tem resposta. Ser coerente em um lugar para ser incoerente em outros. É o que fazemos a todo instante. A socialidade está na carne, os valores adentram a alma e deixam marcas indeléveis, por mais hippie que se seja. Todos seremos fruto do meio porque o meio é dentro de nós. Despir-se disso é balbuciar frases sem sentido na rua, trajado de nada além da nudez. Sem medo, sem porquês. Toda crítica a esses homens é social. E querer ser eles, estranhamente, tem em si uma covardia e uma coragem. Viver é uma arte.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Semi alienação

Sou alienada do mundo. O que me diz respeito é esse pequeno universo interior de todos nós, que ninguém pode contar, porque qualquer narrativa a seu respeito já não consegue dizer nada sobre ele. É mundo, mas não é ele.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Prolixa

Lembrei, porque estou aqui no silencio dessa casa. Lembrei, porque não esqueci nunca. Lembrei já que outra atitude seria fingir. Sua risada alta, uma doçura que eu não sabia entender. Precisei te perder para entender cada oração na madrugada, cada choro em sussurro, cada gesto de abdicação. Nunca serei tão amada e esse amor inconcreto, sem regar, parece hoje só unilateral. queria praticá-lo de novo ou pela primeira vez. Precisei te perder para amar com mais força cada momento que passamos juntas. É mais um instante daquela saudade apertada, dessas que o peito congela de medo do amanhã, porque é mais um sem você. Saudades

Sampa

Cair do sonho e acordar num mundo cinza, onde tudo se complica por nada, onde as moedas sem valor de troca passam a tentar comprar o amor que não se acha. São Paulo, colore com as tintas dos grafites o coração dos teus homens mercantis.

Jogadora

Lembrei dos momentos Da mais pura Confiança. Na mais integral entrega. avassaladora exposição. A forma como dei de ombros... Nunca imaginei quão duro era para um ser humano se abrir daquele jeito. Medo, insegurança. Esqueci tudo isso, sem perceber que isso me guiava e agora dr mascara nessas feridas todas. Tornei-me insensível a algo além da jogatina. Famosa vulgarização do amor. Babaca hoje só tem um sujeito: o que vos fala. Babaca fui eu. Babaca fui eu. Eles me amaram e eu só via rostos sem mãos suadas, sem palavras medidas, sem frases pensadas. Eu vi nada porque não via amor.

Na boca alheia

Em síntese: deslocada. Habita o vizinho, o colega, a pessoa que está ao meu lado. Essa vida na boca de todos que ousam defini-la e definir-me. Nada serei do que dizem de mim? Criaram um eu paralelo e talvez mais real que eu mesma (que me desafio a desentender-me comigo frente as minha incoerências). Passo a me confundir com esse alter ego que nem sei o que de mim tem.