Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

domingo, 16 de outubro de 2011

Egoísmo

A dor do mundo é o egoísmo e dói dentro com a mesma força da falta de amor que se propaga para fora. Dói fundo e sozinho...

Sua Culpa

Eu não sou mais que você. Eu não sou palhaça para te entreter. Eu só sou assim. Eu não faço graça para sua desgraça. Eu não sei quem por mim passa. Eu sou para mim. Você que é tudo e quer ser nada. Você que julga e me ameaça. Você que não sabe me ter enfim. Você que faz um enorme drama. Você que me recolhe e depois me derrama. Você que age sempre para o nosso fim.

Rumo à Eternidade

Estou pronta para esta nova fase. Chorei as gotas mais pesadas, sabendo que algo novo se aproxima, ciente de que deixarei para trás uma versão dos fatos que é, contudo, frágil, posto que passageira e precipitada. A verdade que dói a vista de tão escancarada posso vê-la agora com maturidade. E me entristece ainda - na vã incipiência do homem incompleto e audacioso que tenta ser o que sabe não poder - saber que não tinha essa fineza e requinte de conhecimento transcendente quando Eles estavam aqui. Mas sei que a sua ausência é que me deu a lupa aos sonhos, que só serão realmente encantadores se entendido o quantum deles é o impalpável desafio e a quota deles que é passível de criação. Livre Arbítrio e Mágica Divina. Sonharei consciente dos meus limites e ávida por superação. Serei por Vocês. Serei eterna.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

** Crônica: Puta

Foi uma experiência surreal e se insere no contexto destas coisas que instigam a pensar e abrem o encanto da vida madura: estimar os comprotamentos humanos, com base em amostras de uma vida atenta e vivida na intensidade e não em palpites precipitados ansiosos por mostrar maturidade. Enfim, replico. Descia de um hotel, após encontrar um semi affair de tempo atrás, mas interrompido. Aquele embate já adulto de vaidade parado na piscadinha de olhos pueril dava graça a história já em seu início. A verdade dela e obviamente a dele é que ambos estavam loucos para transar. Mas inseridos sem quererem ter sido nas necessidades sociais  - que, contraditoriamente, pelo desprezo trivial, fizera-os diferenciados - é que entoavam um encontro convencional, sem apelar ao iminente sexo que sabiam ocorreria ao término daquela noite. Pegou o carro e sem dúvida fez o que quis, sabendo que o pensar sua liberdade soaria a qualquer ouvido da alta burguesia como uma mulher querendo se afirmar. Era o que se queria crer e por saber disso, ela gozava com afã do pensamento torpe. Sabia a calcinha que portava debaixo daquela blusa de babados., Achou graça e riu-se toda. Podia ser uma safada... Posava, contudo, em trajes com pouca, mas alguma transparência e encenava gestos delicados de menina moça. Não trazia dúvidas de seu requinte à majoritária sociedade de idiotas, mas fazia latente os seios no vestido àqueles que sabia podiam vê-la: os safados de nascença e os escusos de existência pensativa, fatigados pelo mundo sem nenhuma graça fácil. Ela vinha da segunda geração, pois nascera exageradamente convencional. E ter vivido isso a fizera aprender a agir, como a média, que é pior do que ser ruim, pois esse ainda se dá ao luxo de ser diferente. Assim é que gostava de viver aquele papel médio a maior parte do tempo dando lances de sua verdadeira face em palavras soltas. Era seu jeito moleque de achar os sensíveis, deslocados da superficialidade. Ademais, aquela existência cotidiana por vezes fazia com que ela mesma se questionasse se realmente não tentava ser o que não poderia. Conseguira ela realmente se desprender de tudo aquilo que repele? Sentira-se incontáveis vezes só, preocupava-se em desmentir inverdades... Neste exatos momentos não sabia se não afirmava de maneira rebelde algo que ainda não tinha conquistado: a desoneração deliberada da obrigação social. Mas o mero pensar aquilo talvez fosse um determinismo social, a necessidade de se reintegrar a massa. Deliberaria sobre aquilo, portanto. E decidira ser singular. Mas saindo das digressões, desceu ela do hotel, com seu terniznho chique, que em qualquer outro contexto de sua vida rotineira a fariam uma de nome promissora, mas que, naquele lugar, fariam-na no máximo uma puta inominada de luxo, usada para satisfazer a lascívia de um executivo estrangeiro. Sem ticket na mão, com a roupa meio de lado, sem qualquer indício de hospedagem. Puta. A certeza se fez quando ela disse estar sem ticket. Teria esquecido...Isso traria felicidade a todos, que convictos do engano e envergonhados de sua mente maliciosa, repetiriam frases satisfatórias de uma cena mal lida. Era o que queriam: terem entendido tudo de forma equivocada. Ela pegou seu celular caro (Seria dado por ele?) e... Sem carga. Tá complicando. Ela pede novamente o carro e diz ser seu. Mostre o ticket, então. Tá lá em cima. Use seu celular... Ele somente olhava o aparelho móvel querendo dizê-lo. Ela já adianta: sem bateria. Claro! Embaraçada com aquela exclamação não ouvida, ela entra no hotel novamente. Pronto resolvido! Ufa, estariam equivocados. Era conveniente que não fosse mais uma mulher das muitas do lupanário do outro lado da rua do aeroporto, pois não parecia... Mas sabe lá, puta não tem cara. Ela ouvia o que não tinha sido dito. Certamente, teriam-no pensado, todavia. Dera para ler pensamentos. Filhos da puta, suas mães é que são umas vadias, vocês vão ver.. Querendo provar-se mulher idônea a eles e  - a partir de agora - a si mesma, tenta subir. Nào tinha de fato conquistado o desapego com o pensar alheio. Moça, o elevador só sobe com seu cartão de hospede. Preciso subir, mas não sou hóspede. Cara crachá não entende. Entende sim: é puta! Ah que raiva! Acabo de descer, você não viu? De qual apartamento? Puta que pariu, não saber isso é confessar o meretrício: Lembra, por favor. Lembra! A gota de bateria transbordou o equívoco. Oi, ainda bem que me atendeu. Esqueci meu boleto aí. OK, desço? Não, eu subo. Desligou. Idiota, você não consegue subir... Bob maldito. Já esquecera que não subia? Liga de novo. Foi-se aquele tico de Bateria... Tão esgotada como ela com aquela situação. Recepção! Por que não pensou antes? Começa a dar de louca, já nervosa. Olá, eu estava no quarto, esqueci meu ticket, não subo no elevador, vocês estão entendendo tudo errado... Liga nesse número. O Santo das Quase Putas deu fôlego a bateria. Só deu tempo de anotar o tel e puft. Tem número a mais aí moca. Dã! É prefixo, é de fora de SP, Londrina. Puta de executivo! Certeza... Já extasiada, fez força. O superego começou a agir e ela no embate se concentrava na graduação pública que sabia ter e nos muitos ditames morais que seguia, por berço esplêndido do qual nascera. Deu vontade de falar aquela conhecida frase "eles não sabiam com quem falavam" ainda que ela abominasse em sua vida particularmente avessa a direitismos. Parecia ter encontrado uma exceção, mas conteve-se. Ela sabia e bastava. Ele desce e entendeu tudo na hora. Ela realmente tinha sido. Sabia ela também que aquele aditivo a tirara qualquer pudor, o que fizera dela despreocupada com interrogações e loucamente quente. Pensou que pudesse não ser propriamente no ofício, mas o desempenho, meu amigo, era profissional. Repetiria aos camaradas de Londrina. Mas homem tem que ser muito homem para ter como mulher uma que desempenhasse. De todo modo, as paredes nada diziam e a expertise não a fariam detentora do termo que indicava ofício. Queria esfregar na cara de todos, mas nem a descida dele era capaz de mudar aquela já propagada vontade de crê-la puta. E Ela o despachou rápido, antecipando o estrelar. Vira-o inevitável e decidiu pegar o papel. Esperando o carro sozinha naquele hotel olhou para cima e fez-se o momento surreal. O holofote vermelho que sob ela pairava abriu o espetáculo. Ela inclinou a perna e subiu o vestido. Diante da coincidência teatral e cômica, era dever internalizar a puta. Ela sabia que tinha talento, mas era feio ou arrogante dizer. Além de contraditório: mulher inteligente, romântica e cuidadosa não podia ser puta. Por mais que se dissesse querer uma, não é o que se queria, na verdade. A cama não compõe todos os cômodos de uma casa de famílias margarina. Ainda somos covardes. É preciso fazer vivas as amarras sociais. Ela saiu dali, contudo, desdizendo-as. Aquela tinha sido uma boa personagem... 

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Ainda que eu morra

Pra quem minto? A minha essência é amor. Eu vivo o mundo com a vida a fundo. Se é para sofrer vou ao auge da dor. Não se cresce sem lágrimas. Não se constrói um mundo omitindo as falhas. A hipocrisia não venda os olhos dos sensitivos.  A minha rebeldia não consegue afastar iguais rebeldes amigos. Não paro na trilha se há mais horizonte, ainda que doa. Não peco se vinga a mais sábia justiça de Deus a balizar-me a fronte. É dia de luta, ainda que eu morra.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Borboleta

Sai do casulo. Pude sair. Fiz-me borboleta e voei por breves instantes. Eles voltaram. Recuei a minha beleza dentro daquele espaço ermo e pareci inexpressiva. Era só como larva no esconderijo escuro que eles me admiravam. Temeroso seria se eu fosse mais que eles... Mas o problema é que eu sabia voar. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ignorância

Saiu de cena, me fez pequena, diminuída. Aquilo tudo concretizava enorme o eufemístico pesar antevisto. Temi não consegui me recompor, saber quem sou, depois dali. Repuxava-se o rosto ao centro na mais tênue tentativa do riso. E eu só queria um pequeno impulso de felicidade. Eu não seria mais. Então bebi de mim em fotos revistas, tentando encontrar novamente aquela versatilidade de artista, alguma capacidade de ser feliz de muitas formas poucas... Tudo que me sobrava era o drama, porém. A gana que me fez um dia chegar me impedia agora de conseguir ir além. Eu me acorrentava ali por saber que nada mais seria tão intenso. Chorei cada gota de mim esvaziada na futilidade futura de amores pretensos. Qualquer viver era pouco, depois daquilo. Eu preferia ter ignorado. Desconhecer a singularidade era poder sorrir muito com qualquer coisa.