Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Deslize, Sra.

O mundo me desagrada. Desagrada-me o mundo. Não quero ser a chata, mas me desagrada o mundo. Às vezes me conformo com a chatice, galante sou comigo, e me felicito pelo desagrado. Outros preferem uma sequência dos três símbolos, F32, um F33 quem sabe, afinal é mais importante uma tarja contra a presença, essa que melindra a falsidade. 


Às vezes tudo que quero: pertencer. Mais nada. Nada questionar. Rir, sorrir, apagar qualquer riso, mas deixar. Em silêncio, procuro o controle. Descontruo dentro muitas caixas preciosas, mas me entristece a percepção de algo que não encaixa e que o preciso, num afã necessário à minha existência de fazer brilhar os olhos, ainda que pela esperança de que se lide urgentemente com as inexistências das existências todas. 

Quando criança, o círculo tinha seu espaço. Apunha na casinha de formas, teto vermelho, parte de baixo branca, janelinhas em quadrado e cruz, colocava o círculo colorido, gentilmente, e lá se ia, manso, deslizava numas palmas de encontro. Eu ria. Que delícia. Slap, pumba. E se ia, novamente, chaves da caixinha aberta para ver as formas novamente encontrarem seu destino aprisionadas, impostas juntas, naquele breu. Quadrado não cabia no círculo, o círculo só entrou no lugar quadrado quando quebrei a caixinha... 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A pessoa que me tornei é suja. Esfrego esfrego e não limpo. Ela me decepciona todas as manhãs e também, quando vou dormir. A vontade é de deixá-la e seguir pra um lugar onde niguém me conheça. Com trajes novos, trajes de me esqueça. Eu preciso agora ser amor

sábado, 20 de fevereiro de 2016

cansaço

Cansei do medo e desse tempo armado para nos esquecermos. Cansei do estado da roupa nova que se fez minha por saber iria instigar-te: pendurada no cabide do desencontro. Cansei do propositadamente baixo e rouco de uma frase quase dita. Cansei de ver a água que é tua escorrer por tabela porque outro sente e aproveita essa minha sede do que não vem. Cansei de me pegar olhando para aquela famigerada rede de entrelace - hoje suspeito em essência unilateralmente parcial. Cansei mesmo (quem diria) daquela memorável cena que se repete por falta de capítulos outros. Cansei do ridículo dos seus traumas racionalizados em frases feitas na eloquência dos comuns que evito. Cansei da escova de dente sem pasta, cansei de saber que o pouco te basta, que preferes seguir sem porquês. Cansei do pacote de nascimento barrado (que, perdoem-me os corretos, já me questiona) completo sobre o meu criado mudo. Cansei de ter de colocar dias entre nós para fazer-nos surdos aos sussurros de Deus. Cansei dessa constante insistência para sermos individualmente bastantes, fortes, insuscetíveis aos devaneios dos deliciosamente apaixonados. Cansei de ver-te convencer em autofagia que os momentos ternos são um juízo errado. Cansei de a autoconfiança e a tranquilidade serem deixadas no chão para carregarmos armaduras de guerras já vividas. Cansei de me persuadir que o encanto é ilusão (talvez não fosse se houvesse uma permissão despudorada ao sentir). Cansei de ter de me impedir o carinho e o cuidado (para evitar sei lá o quê). Mediocridade dos medrosos, que, aliás, é um pleonasmo.

Vida vivida do caralho.

Tapas suscescivos na cara do amor dão a sensação de que o peito forte é imaturidade. No fundo, é a mais pura evolução do ser, que em fé e escolha se sente agregado e não privado de nada.

Eu quero vísceras de um nós sem história, eu quero poder pedir pouco do que guarda a minha memória, eu quero apenas poder ouvir "vamos" na inteireza do seu futuro e na literalidade do seu plural.

É, enfim, acho que me cansei de você.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Nada muda

Hoje morri por ele pela primeira vez. Achei que não haveria mortes desse tipo desta feita. Afinal, muitos já se passaram, e eu deveria ter aprendido. Afinal, ele não parecia do tipo homicida, mas todos somos no fundo nesse mundo onde a entrega é piegas e a necessidade de guarida é, contudo, um fato certo. Deveras, o homicídio é antes de qualquer coisa um ato egoísta de quem prefere no impulso ou meticulosamente dar fim a se forçar mais. A dificuldade não é para esses playboys de existência que têm jornais na porta de casa, crédito no banco e mulheres sem amor arreganhadas à beira da cama. Enfim, a hora que o medo bate, não se pensa em mais ninguém, nada além de fugir daquilo que angustia, de procurar algum tipo volátil de saciedade. E aí se vai de carona quando se sabe ela espera por ti. Bebe-se mais porque uma conversa mais profunda sem máscaras é de um mundo mais sem graça. No fim, são tiros em histórias de pode ser, mortas antes do nascedouro pelo tal "medo de viver" a vida madura de que por uma vida toda nos esquivamos, vida esse, que às vezes, amigo, sinto dizer, tem pedras no caminho. A pergunta é:,Até que ponto devemos por amor a Deus (que hoje é a única coisa que me conduz) aceitar essa bosta de fuga? Devemos assisti-la com pipoca ou gritar feito técnico no jogo da final? Porque é uma puta mediocridade de essência ver a porra toda encenando sem que o protagonista bote fim no espetáculo de sua miséria, é um tanto faz ou na maré ignorante para caralho. E mais, especificamente nesse contexto diminuto e muito mais superficial em que me coloco: o que eu deveria fazer agora com Ele? Jogar-lhe anos todos de atitudes similares (um copo cheio transbordado por um peteleco) e simplesmente dizer adeus sem mais, eu e o meu saco cheio de mediocridades de outrora (inclusive minhas). Deveria respirar fundo e dizer com a maior calma do mundo: "filho, senta aqui, deixa eu te contar o que descobri sobre como a vida é complexa". Eu poderia ainda gritar  "olha a merda que tu tá fazendo!". Mas, enfim, quem sou eu? Sou uma criança nesse mundo sem noção. Devo dizer que também passa pela mesma cabeça o alimentar minha própria mediocridade com beijos de bocas sagazes pelo instante da derrota dele ou procurar abraços de madrugada que curam o ego, mas incendiam a carência. Mediocridade minha! Fato é que não sei a resposta de como devo agir, mas tenho algumas eliminações óbvias. Dizer que todos optam pela relatividade das relações é me desconvencer das bocas e abraços, já que abandonei há tempo o que chamam de argumento de "autoridade", ou, no caso, de "popularidade". Veja os sórdidos desse mundo e a eliminação é evidente. O dia que "todo mundo" puder me definir eu seria a pessoa mais feliz do mundo; a ignorância é uma benção. E no meio dessas perguntas toca "Live is a Losing Game" na porra do meu rádio que só pode ter como locutor esse tal de Deus piadista. Aí concluo que ninguém será capaz de entender a minha complexidade e eu nem choro mais as lágrimas pesadas que costumavam cair (o que me deixa ainda mais surpresa). Tudo isso nesse canto de bar da Avenida Paulista que aprendeu a me abraçar nesse teco de compreensão criada às custas de alguns vários vinténs.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Regresso

Ele ainda não pode dizer. Sequer sabe. É muito fundo, é muita coisa, é muito humano. Eu não posso dar vazão. São as regras do mundo. Nele, simplesmente não se pode permitir "crendices". Nesse mundo, o amor não é bem vindo. Não sem rodeios, firulas, sem traumas retroalimentado por um dever de evitar a dor, a qual, segundo se propala, certamente virá. Eu não estou certa de que essa retroalimentação não é em si um autoflagelo. Enfim, nesse mundo, o amor é um intruso, um forasteiro, que a gente não recebe de noite em casa com receio de levar-nos o que temos de melhor. Pudera. Quantos há a questionar as verdades intocáveis da alma pelo medo implacável e bem mais concreto da rejeição. A carapuça que serve antes da frase ser dita porque esperar ouvir dói mais e também mais fundo. Pudera. Porque se admitir frágil nesse mundo de vaidades é uma batalha para a qual poucos se alistam. Pudera. Autoconfiança, humildade e maturidade são fluidos que não se misturam no copo sem uma enorme colher de terapia mexendo sem descanso. Sobram então nesse mundo podre os sórdidos para os quais a solidão certamente não "acontece".


Da minha parte, voltei a escrever porque preciso. E preciso porque deixei de ser seca nas entranhas. Fora a água jorra, mas quanto mais inunda menos há dentro a secar. Quanto mais o corpo molha sem proceder-se pelo duro bater do peito, menos há lá dentro preenchido. A água que não roda moinhos. Passado, estou em outros tempos, ainda que nem acredite que isso de fato tenha acontecido nessa altura de quase inanição. Agora, é oração para dois, plural de pratos na mesa, o medo e uma vontade quieta de te pedir para ficar. A mesma que sei estar aí igualmente calada. Se nada mais houvesse, entregar-te-ia. Eu te entendo que assim seja; mas, confesso, acho covarde. O mundo que se exploda para que os destroços do insucesso de suas falácias alimentem meus sonhos - sonhos esses ditos ilusões porque nesse mundo poucos foram fortes o bastante para crer no que não se vê.

domingo, 24 de maio de 2015

O pecado

Reparei-me diante do espelho. Silenciosamente rugas e fios brancos. Pareciam ter brotado há poucos segundos. Talvez com o progressivo desbotar da minha ousadia, que desmilinguida escorria preto aguada feito rímel em fim de filme triste. A psicologia sim passou a compor meu álbum da vida, depois de eu, enfim, perceber o grão a mais do debulhar de risos desesperados e de lágrimas desavisadas. Dei-me deveras tardiamente conta do caldeirão das minhas contradições. Veio, contudo, e me felicito. Assustei-me diante de algo que tocou meu ombro. Quando virei, ainda que não entendesse aquilo tudo, disse ao ar "que susto", como se me corrigisse. Não havia ninguém. De cima da minha solidão, todavia, caiam folhas de caderno manuscritas. Sabia ser um devaneio, mas dei azo à dramatização cenográfica da minha tristeza. No chão frio e riscado pelo saltos circunflexos vi páginas espalhadas de um livro que eu conhecia, algumas delas com as pontas ainda picotadas como se a raiva tivesse mãos. Quando me dei conta do sonho em vida, procurei com o coração dilatado outras páginas, mas lembrei que foram subtraídas sorrateiramente por um ente chamado Deus, que eu passei a respeitar muito. Amores foram decapitados pela mão arteira do destino, ou talvez pelo facão que se depositava em sangue na minha mão agora trêmula, após atinar ali dos óbitos que cometi eu mesma. O velho eu diria que foi culpa. O novo apenas sabe do dolo. Cai o facão, suja as páginas, mas não suja a mim, pois o sangue bate e torna, como se eu fosse impermeável. O meu corpo, contudo, por dentro padece, ainda que fora o retinto do rubro não se enuncie. Aliás, como sempre. Abro a boca para um berro que não sai e me impeço, enfim, esse devaneio por desespero de continuar. Saio dali vacinada, com a certeza de que não mais pecarei. E volto a pecar dali 2 dias

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Planeta dos Macacos

Roda Gigante de Recalques, Moralismos e Outras Coisitas mais. Viver em Sociedade é achar-se independente, sem ser. E crer na singularidade, sem ter. É ousar e perceber-se no lugar. Ao se questionar uma coisa, convalida-se outras tantas. Caso contrário, nada tem resposta. Ser coerente em um lugar para ser incoerente em outros. É o que fazemos a todo instante. A socialidade está na carne, os valores adentram a alma e deixam marcas indeléveis, por mais hippie que se seja. Todos seremos fruto do meio porque o meio é dentro de nós. Despir-se disso é balbuciar frases sem sentido na rua, trajado de nada além da nudez. Sem medo, sem porquês. Toda crítica a esses homens é social. E querer ser eles, estranhamente, tem em si uma covardia e uma coragem. Viver é uma arte.