Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ode ao Eu

O que te faz especial? Uma rosa, um dedo de prosa, ou uma taça de vinho dividida consigo mesmo? Cada dia que vivo, mais me apego a terceira opção. E na solidão deste meu momento me entrego aos pensamentos que ninguém mais pode compreender. O tempo se passa e eu não acho mais graça em estar com ninguém. No sossego que não me questiona, acho sentido na minha loucura, fiel protetora deste eu. E me ponho feliz no aconchego da minha presença, enquanto ainda se pensa que é desespero. Condicionados a estabelecer no outro a nossa felicidade parece impossível ter só o melhor momento da vida. É uma pena que não possam se brindar a guarida do seu eu em si, sem ser no porre e na melancolia, quando o álcool só socorre e não sacia. Tal entrega ao desapego é o avesso desta cena, em que o cotejo é a capacidade de limitar-se, sem privação. Eu aprendi a apreciar na moderação do meu instinto cada gota de mim naquela taça de vinho tinto que vem me agasalhar na noite fria, para que meu dia se finde no epifânico. Sem pressa de cada gole, uma parte ruim de mim morre, enquanto outras tantas estrelam. Não há sede, nem vontade de esquecer nenhum desatino. Aliás, é ao desatino que pretendo brindar. Ele me compõe, como partes outras de mim o fazem, e, se eu tirá-lo, ao fim, serei eu? É deste ser imperfeito que eu quero companhia para afrontá-lo em suas partes soltas e elogiá-lo em suas conquistas rotas, mas ocorridas. Hei de me acostumar com sua incapacidade de ser incorreto, de às vezes querer pecar. E assim que encaro a realidade seca do rosto refletido na maturidade às vezes pedante que não me faz querer ir além de breves goles. Meu corpo hoje sabe a hora de parar sem cair no torto, no torpe, no efêmero da realidade covarde de copos e bebidas baratas e mal apreciadas. É o puro sabor da minha existência - seja ela vitoriosa ou derrotada - que quero ver resplandecer pela boca por horas. No degustar daquele instante transcende o banal do vidro enrubrecido. Deparo-me comigo. E gosto do saldo final. Arrogância? Chamo eu de amor próprio.

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