Elas tinham em parte razão. A vida havia me deixado muito dura. Mas neste exato momento acaba de ter mudado a minha mania de defeitar as pessoas. Por isso, de alguma forma, sinto que essa é uma carta explicação. Não carta tipo de defunto, antes do suicídio, mas uma carta de vida, o oposto, portanto, e que se inicia agora. Não posso, antes deixar de fazer uma breve consideração. O fato de eu ter sentido a necessidade de fazer a ressalva de que não era um adeus. Parece medo de que o leitor pense que a constatação do defunto em primeiro e em relação a um suicídio era exatamente esse meu elemento mórbido que faria esse testo um ato falho. De outro modo, metalinguisticamente falando, eu não teria alcançado, de plano, a evolução que pretendia: querendo mostrar não ser pessimista, começo o mesmo falando de morte? Ora! Bradariam e desistiriam de ler. Prossigam, contudo, por favor. Garanto que estão equivocadas, pois esse começo não é a exteriorização de um escondido psíquico, mas sim intencionada graça que pretendia conferir ao texto. A dúvida. A ironia. O inusitado, adjetivo que não tem a toa o "O" que o antecede, ao invés do "A". O inusitado é a quebra. Convenci que é a graça do começo da narrativa? Como saberão que eu mesma na verdade não estou tentando me convencer disso, sem notar que todo esse introito é somente e efetivamente a imperceptível (a mim) noção de meus carmas freudianos? Como um paciente que, defronte do analista, diz suas cicatrizes sem perceber que as fala por detrás de cada história. Como se a frustração que o levou a sentar no divã revelador despontasse só para fora, mas de cada excerto, de cada letra de suas histórias. A palavra sai do seu corpo para o analista que a conclui e extrai de cada falha no seu discurso, de cada epifania sua, que entendeu por bem contar aquilo naquele exato momento, mas não saberia dizer por que. Freud explica e o analista sabe. Seria essa digressão de metalinguagem a demonstração de que nada mudou, na verdade, ainda que se ache isso? Creio, dessa vez, definitivamente que não, mas, como sou eu quem vou digo e vocês olham de fora, precisarão ler para saber e avaliar. De fato, quem vive e quem narra são pessoas distintas e quem narra gosta das gramatiquices. Paradoxalmente pelo jogo de palavras pode botar em choque a ideia que veicula com elas. Divagações de nerds. Fato é que este é o exato momento de transição e essa referência, ainda que difícil de acreditar, não é a permanência desse traço, mas a metalinguagem, minha arte e a veste do personagem que escreve. O eu-lírico mudou, o narrador é que permanece o mesmo, por ofício. Seria outra macara? Creio (e não "estou certa"ou estou ciente" o que já é um sinal de mudança) que aqui é real. Explico-me acerca da transformação do ser poético. No meio da conversa, uma delas diz: "Ah Dri, mas você só enxerga e ressalta o lado ruim das pessoas". A conversa parou para mim em epifania e dando regresso à frase já finda e abafada, perguntei: "Você acha?" A minha outra amiga, sabendo um pouco mais da minha sensibilidade amansada pelo contexto da minha vida preparada contra o entrar de cabeça, prossegue com o próximo tópico. Eu insisto com Ana, ignorando minha velha amiga: "Você acha?" Ana responde subitamente que sim e olha, na sequencia, para Júlia, verificando sua ação e demonstrando em olhar suas razões. Como se, naquele momento tivessem discutido mentalmente um contrato, assinado e felicitando-se um a outra pela sensação de necessidade e missão necessária cumprida. Elas haviam percebido que eu nunca tinha sequer notado aquilo em mim. Achei por um momento que elas esperassem que eu tivessem visto, mas acabaram ali, notando que talvez não me era tão possível. Percebi que amar de verdade como se amavam é evolução. Felizmente, naquele momento elas concordam em mente inteligida que talvez fosse adequado falar e o fizeram. Eu, habituada com meu eu que estava se desprendendo de mim e se despedindo, tentei ainda cavar o auxílio da minha amiga de mais longa data, com uma frase de efeito. Como se tirasse a razão de Ana pelo desconhecimento, que é sempre um aliado do "é que eu não sabia desse ponto", embalei um "eu sempre fui assim", olhando em espera de confirmação para minha antiga amiga, como se cavasse. Sabia no meu âmago, contudo, que a minha amiga mais recente era paradoxalmente tão conhecedora de mim como minha antiga minha. São esses em laços familiares cármicos que não se explica... A famosa de Vinícius de que amigos não se conhece, mas se reconhece. Voltando, Machado! Sabendo que o "eu sempre fui assim"menos que definir um algo como mancha de nascença indissociável e inexplicável, justificativa justamente uma motivação para manutenção dos meus erros e mostrava um certo comodismo da minha parte, Júlia, em missão de fiel pagadora de seus tratados, minha amiga Júlia surpreendeu-me não ao trocar o “é verdade” esperado pelo “Já está na hora de evoluir, então”. Com conhecimento de causa para reafirmar a verdade daquele ciclo com um "é verdade", isto é, podendo fazer uma análise comparativa do presente e passado que Ana, conforme sabidamente captado pelo meu lado podre de mim, não poderia fazer, Júlia podia dar cabo àquela discussão, dando-me razão. Não o fez, felizmente e tudo aquilo se inseriu em uma cadeia de necessidades e coincidências divinas (elas não poderiam ter planejado antecipadamente esse acerto quanto ao ensinamento que eu acabara de ter. Ela não precisamente falou "é mentira", mas causou-me o mesmo embaraço do que uma negativa de argumentos apresentados. Ana olha para ela como se a pedisse um pouco de calma e poda-se-lhe o exagero da notícia dura sem um pouco de psicologia. Não era o 8 da omissão e nem o 80 do soco, deveria ser um tapa de leve. O primeiro, da Ana havia sido sem querer, mas se fez necessário, concordaram, portanto ambas em revelá-lo, o segundo veio na guela abaixo. Júlia que era mais racional, mas também mais impulsiva (é possível ser racional e impulsiva, simultaneamente ou é contraditório?). Fique claro não tinham tom de crítica; somente me aceitavam assim (coisa que eu devia fazer com as pessoas), sabendo da existência desse meu defeito, e esquecendo dele, porque havia outras coisas. Eu não só queria que assim fosse, eu sabia que era assim. Talvez também tenha percebido que me preocupo demais com os outros, coisas que também vi ter sido um comentário passado, nos olhares e também epifanei, razão pela qual também está após a frase “eu não queria que assim fosse, eu sabia”, como se precisasse mostrar ao leitor que soubesse. Eram dois defeitos, mas o primeiro foi necessário, o segundo só acabou vindo junto. Não percamos o foco com a abertura da caixa de Pandora. Voltemos ao pensamento acerca do meu pessimismo, cuja lembrança pode justamente dizer razão ao meu pessimismo, mas não aqui, haja vista não estarmos a falar do meu momento negro anterior que eu acabara de perceber, mas sim diante do exato momento de minha epifania. Aliás, conjugando os fatores do pensamento estrito delas... (i) “quando eu encanava acerca do defeito de uma pessoa eu me impedia de ver o lado bom dela, justamente porque eu passava a dar tamanha importância ao defeito que me bloqueava qualidades que talvez fariam muito do(S) defeito(s) um mero detalhe aceitável” (ii) “isso era um defeito” (iii) “defeitos devem ser mudados”, ...eu tinha toda razão esclarecida oposta à minha razão ignorante para não atentar para um defeito (passei justamente a dar tanta importância para a contrariu sensu minhas qualidades que me impedira ver esse defeito matriz. Me senti no matrix. Ninguém iria me entender. Fato é que no meu caso não aplicar pela primeira vez a minha descoberta em face de minha mesma era o único jeito de aplicá-la. Colocaram assim nos meus olhos a lente necessária a perceber algo que viam a olho nu. O observador que não se mistura com o ente observador, vê com o objetividade o corpo exposto ao seu crivo. Percebi que Clarice também desenvolvia as mesmas pira que eu nesse estado que só quem o vive nesse exato momento o entende. É nesse exato momento que recomendo-os a ler: Chapado. Caso contrário, não entenderia. Percebi que Clarice era uma chapada e desculpe-me seus familiares, caso não possam entender que considero isso um elogio. Percebi, na esteira de todos os pensamentos que vinham me reabrindo para o amor: eu estava errando. Na verdade, essa perecia uma das últimas conquistas para que eu pudesse recomeçar a amar: relevar os defeitos era o primeiro grande passo para, de fato, permitir o amor. Sentia que estava chegando aquele momento. Eu me apaixonaria novamente e em breve. Deus colocasse em meu caminho, aquela pessoa que amo sem nem conhecer ainda... Eu sabia que estava vindo. Estava chegando a alma gêmea.
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