Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

quarta-feira, 30 de março de 2011

**Crônica: O (In)Verídico

Foi entre a sessão dos laticínios e das verdura que aquele doido apareceu. Olhou-me a primeira vez a admirar minha imponência, a independência que talvez não tinha em casa. Fazer compras as 2 da manhã é sinal de solidão. A minha se fez evidente sem que eu reparasse. O olhar de desdém na contramão bloqueava o meu caminho. Eram inegáveis os indícios no carrinho. Compras de solteiro: lasanha, enlatados e um pote de brigadeiro. Me fiz esquecer. Passei pelo setor de bebidas e pensei em tomar um vinho. Mas a bebida não foi feita pra quem está sozinho. Optei pelo refrigerante. O álcool seria levante... Gostava de estar só. Eu "me fazia feliz com a situação". Dizia a todos que a falta de alter era opção da vida vintecentista. Mas eu me incomodara com aquele oportunista das fraquezas "invisíveis", justamente por saber que o meu discurso era desculpa esfarrapada da minha inabilidade tão perceptível diante de mim mesma. A verdade é triste em sem impor aos autores das mentiras. Aquele homem me encarou como quem percebeu o pensamento. Paguei a conta, coloquei as compras, saí do estacionamento. Ele buzinou, voltou de ré, me mandou farol alto. Eu desconfiada cogitei que seria um assalto, mas ele sorriu. Senti confiança. Hesitei, quando tive a lembrança de histórias de gente que morre por aí. Parti a primeira e recuei ao ponto inicial. Ele desceu do carro e me fez um sinal. Senti que podia. Debruçou no meu vidro, apresentou-se como doença incurável: "médico e casado". Disse voltar ao Pará na segunda, amanhã fecharia seu último compromisso inadiável.  Viera fazer a residência. Partiria... A impossibilidade de adiar-se surtiu efeito. Fez-se a indecência: dei meu telefone. Cheguei em casa e se fez o toque. Me ofertou uma noite de sexo e eu sei nenhum choque, combinei. Tudo no impulso, sem pensar. Percebendo a traquinagem divina sem nexo achei que devia recusar... Disse ser uma aventura. Eu gritei ser loucura. E, dessa vez, não fui... Ligou, religou, insistiu. Eu fui descansar. Por quê? Me perguntei por que. Tinha virado moralista. Havia alguém a quem amava e agora aquilo doía, inviabilizando-me de ser egoísta. Eu pensava na mulher que estava a o esperar em casa...

Inspiração

Sem melancolia, não faço poesia. Preciso facear a solidão, enfrentar a dor, me embebedar de incorfomismo. Preciso estar na escuridão, sofrer de amor, ou titubear de frente pro abismo. Nada macula meus vícios, só acordo da bebida com um tapa rosto. Nem me abalo com isso, não me importa o gosto. Continuo no álcool. A arte da bebida é mesmo desatino, faz combustão para meus dois cigarros. A parte desmedida eu satiro, sem consternação escuto os minutos de sarros. Sem pena, não há poema. É a tristeza que faz o respirar da vida, é o se afundar no fundo do poço que me faz não ver saída. Nenhum bom soneto se faz sem um pingo de auto punição. É sem graça não me reverto em destruição. Qual é o choro dos alegres d'alma? A calma não faz rimas humanas. Se engana se acha que estes versos emergem de uma paixão. É no anseio da morte que me vem inspiração... 

quarta-feira, 23 de março de 2011

Meretriz

Entrou no quarto e se despiu do cetim. Eu só queria uns minutos de romantismo barato. Ela não quis.
Virou de quatro e nem sorriu para mim. Eu não queria me sentir um ingrato. Mas foi o que fiz. Aquilo era pouco para as minhas vontades. Era por troco, não omito verdades: procurei uma meretriz.

Partiu pela porta com cara de indiferença. Eu só queria um instante de felicidade. Ela não quis.
A roupa torta era pressa de nova presença. Eu nem queria fazer caridades. Mas foi o que fiz. Trouxe-lhe centena de presentes finos. Era por pena, não omito desatinos: me apaixonei pela meretriz.

Correu para o cômodo e me fez um gracejo. Eu só queria uns minutos de vivência profana. Ela não quis.
Esqueceu o incômodo e me olhou com desejo. Eu não queria me sentir sacana. Mas foi o que fiz. Aquilo era cedo para as minhas vaidades. Era por medo, não omito verdades: não me envolveria com a meretriz.

Saiu pelo corredor com cara de retorno. Eu só queria uns instantes de esquecimento. Ela não quis.
O seu pudor era como um estorno. Eu não queria prover-lhe constrangimento. Mas foi o que fiz. Furtei-lhe a alegria que lhe havia refeito. Era por hipocrisia, não me faço perfeito: não vi mais a meretriz.

terça-feira, 22 de março de 2011

Ode à Insonia

Chega ela em vagar na noite, quando a lua alumia a crua verdade: não há metade que complete o teu jeito torpe. "Estás só" e não tem ela dó de fazer-te atinar. Deixa-te durante o dia e no meio da madrugada fria mostra-te como prêmio o cansaço. Não há espaço na cama que consigas ocupar. No escurecer de verão, maneja com a solidão quem daquela vez vai se dar ao luxo de ganhar. Nas noites gélidas, em que há certo estímulo ao aconchego altruísta, faz-se talentosa artista a chamar tua atenção. Faz peça no branco da parede e tu espectador tem sede de que chegue a trama ao seu final. Desvia-te daquele corpo escultural que se coloca diante de ti recostado em sono. Lembra-te ela que o abandono é verdade vindoura. "Depois de alguns instantes, não haverá na tua cama mais amantes; só eu tripudiarei diante de teu posposto sono". Não consegues ser dono sequer da tua alma. Ela domina-te no bater da hora, que não demora a passar. Fará ela vezes de mulher esquecida e, por vingança, decapitará a sua sortida frente de tentativas de repousar. "Não conseguirás dormir". E quando ela partir estará o sol lá fora a te lembrar: "Já é hora de trabalhar". E tu nem pregaste o olho...

Amém

Acho que a crendice é um conforto dos covardes
Preferem erigir dogmas a questionar fatos,
Endeusar terceiros a procurar a divindade dentro de si mesmo
Se escapam pelo ladrão hipócritas desse mundo, por que haveria eu de ser diferente?
Seria muito dignificante, mas esse tipo de êxito não me dá lucro
Isso move os traseiros capitalistas do mundo em que vivo
Melhor esperar desse tal de Jesus a outra face e continuar bofeteando cada cara lavada
De esplendoroso, basta-me a crítica, que é tão mais apática e menos cansativa
E ainda me dá o pão de cada dia.
Vejam: não sou de fato um pagão abençoado! Não seria injusto?
Eu não preciso ser melhor, mudar o mundo ou trazer o emplasto da alegria
Fodam-se as futuras gerações que ficam
Que morram com a avalanche de carbono
Que se afoguem com enchentes de merda que vazam das bocas cínicas
Escondem seu discurso atrás do manto verde, da mesma cor do dinheiro
Que verdadeiramente os impulsiona
Não há mais solidariedade e altruísmo nas mentes vintistas
Nosso século sofre do vírus do egoísmo e da epidemia da autoflagelação
Escondem a regularidade cansativa dos comportamentos na busca de idiossincrasias
Nós somos de fato os mesmos
Alguns descendentes dos Cubas, outros dos Nazarenos
Se a saga jesuína é literalmente conto do vigário
E se esse nada mais é para mim do que um pederasta enrustido
Aquele certamente cedeu as tentações da carne já usada da meretriz
Não confio em cruzatistas da igualdade
Que lutam em um mundo paralelo e irreal
Onde a podridão é a do dente trocado por ouro
Em que a dor que aflige é a do estômago esfalfado,
Após a impulsão de um banquete pago com teus míseros tostões
Não poderiam viver no mesmo lodo pobre e faminto dos equânimes?
Anestia-me com a óstia do coma
Embriaga-me com esse líquido do medo
Compartilha comigo cada pedaço sujo do corpo desses pedófilos
Que Assim seja
E que assim continue a ser

Novo Amor

Não culpe os desiludidos do amor
Talvez sejam eles reincidentes na dor de desiludir
Um dia caíram no seu próprio enredo
E ao revelarem-lhe o segredo da vulnerabilidade
Lembraram-se frágeis...

Não julgue os desprovidos de encanto
Talvez tenham sido recorrentes os prantos de socorro que no silêncio sucumbiram
Um dia obtiveram um eco de alento
E ao perceberem ser só o vento a chocar-se na porta
Lembrarem-se sozinhos...

Não aponte os descrentes de bondade
Talvez não tenha havido verdade em qualquer das palavras a eles ditas
Um dia deram ouvidos a um dos mais sábios letrados
E foram ludibriados pela sua ínfima confiança na alteridade que lhes restara
Lembraram-se ingênuos...

De repente, vem alguém à porta
Cobrando-lhes fé? Confiança?

De repente, quando Inês já é morta
Vão pedir-lhe o quê? Perseverança?

Se o homem é capaz de criar um campo de batalha
Se a navalha já não é mais o único meio de fazer brotar o sangue
Se a modernidade criou com ela todos os tipos de medo
Se a humanidade tornou viável a modalidade de degredo interior
Como poderão acreditar em algo, com essa depressão contemporânea?

Se todos os homens lhes bateram, ainda que com flores
Se os maiores amores lhes fizeram chorar
Se o inebrio do sonho lhes fez maior a queda na concretude
Se toda atitude que teve de amor fez desferirem-lhe indiferença
Como poderão acreditar em algo, com essa desilusão atemporal?

Peço-lhe Desculpa, por não poderem.
E questiono: continuarás lutando?

Comum Humano

Não encontramos no mundo correspondência exata
Há apenas peças desconexas de uma mesma faceta
Que encontram em outro um encaixe
Afinidades do comum humano

O mundo revira e volta em si mesmo
Reage diante das atrocidades humanas com suas leis imutáveis
Resgata histórias e apaga tristezas
A menos ameniza as mágoas e a inevitável morte
No fim, contudo, não há sorte no mundo que nos traga bons amigos
Há apenas amizade reflexa...