Foi entre a sessão dos laticínios e das verdura que aquele doido apareceu. Olhou-me a primeira vez a admirar minha imponência, a independência que talvez não tinha em casa. Fazer compras as 2 da manhã é sinal de solidão. A minha se fez evidente sem que eu reparasse. O olhar de desdém na contramão bloqueava o meu caminho. Eram inegáveis os indícios no carrinho. Compras de solteiro: lasanha, enlatados e um pote de brigadeiro. Me fiz esquecer. Passei pelo setor de bebidas e pensei em tomar um vinho. Mas a bebida não foi feita pra quem está sozinho. Optei pelo refrigerante. O álcool seria levante... Gostava de estar só. Eu "me fazia feliz com a situação". Dizia a todos que a falta de alter era opção da vida vintecentista. Mas eu me incomodara com aquele oportunista das fraquezas "invisíveis", justamente por saber que o meu discurso era desculpa esfarrapada da minha inabilidade tão perceptível diante de mim mesma. A verdade é triste em sem impor aos autores das mentiras. Aquele homem me encarou como quem percebeu o pensamento. Paguei a conta, coloquei as compras, saí do estacionamento. Ele buzinou, voltou de ré, me mandou farol alto. Eu desconfiada cogitei que seria um assalto, mas ele sorriu. Senti confiança. Hesitei, quando tive a lembrança de histórias de gente que morre por aí. Parti a primeira e recuei ao ponto inicial. Ele desceu do carro e me fez um sinal. Senti que podia. Debruçou no meu vidro, apresentou-se como doença incurável: "médico e casado". Disse voltar ao Pará na segunda, amanhã fecharia seu último compromisso inadiável. Viera fazer a residência. Partiria... A impossibilidade de adiar-se surtiu efeito. Fez-se a indecência: dei meu telefone. Cheguei em casa e se fez o toque. Me ofertou uma noite de sexo e eu sei nenhum choque, combinei. Tudo no impulso, sem pensar. Percebendo a traquinagem divina sem nexo achei que devia recusar... Disse ser uma aventura. Eu gritei ser loucura. E, dessa vez, não fui... Ligou, religou, insistiu. Eu fui descansar. Por quê? Me perguntei por que. Tinha virado moralista. Havia alguém a quem amava e agora aquilo doía, inviabilizando-me de ser egoísta. Eu pensava na mulher que estava a o esperar em casa...
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