Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

terça-feira, 22 de março de 2011

Um Simples Porta-Retrato



Pus nossa foto em um porta-retrato na sala.
O simbolismo disso, doutor?
Não há qualquer representatividade em um ato tão banal.
Era um bonito porta-retrato.
Tão-somente um belo fundo para uma história acabada.
Não há porque expurga-lo daqui.
Só longe do meu quarto.
Um pouco distante de mim.
Mas lá. Era isso que ia dizer?
Talvez haja uma metáfora da sala de estar
Quis só afasta-lo do quarto, doutor.
Aqueles olhos olhavam minhas canalhices no meu mais íntimo local.
Foi lá que laçamos o instinto dos amantes nas máscaras de Shakespeare.
E bem representamos falas teatrais, omitindo a lascívia, única força a nos aproximar.
Afinal éramos dois pretensos apaixonados querendo viver um devaneio ideal.
Mas escondíamos de nós mesmos as nossas certezas, nossas cicatrizes.
Representamo-o, portanto, para apaziguar nossa consciência e curar nossas feridas
Tão esplêndida atuação, a fazer-nos afogar nos encantos de Baco.
E esquecemos serem mais etílicas do que sensatas aquelas promessas.
Egocêntricos não juram; beneficiam-se a enganar.
Típicas excentricidades da vida real jogaram água nos rostos hipócritas.
Elas são necessárias, doutor. O senhor não acha?
Essas peculiaridades abruptamente mataram o porre.
Deliciosa mundanices, porém vencíveis.
Chacoalham os fatos nosso eu.
A morte, a dor, o espelho perguntam-nos: es forte para enfrentar só?
Calamos e agimos. Não há forma diversa de ultrapassá-las, não é?
Mas ficam lá, como um câncer dormente
Questionando nossas verdades e bofeteando nosso caráter
Pensei que a solidão nos fazia tristes
Mas me desoriento pelo dever ético do altruísmo
Essa enxaqueca que insurge na gente
Esse dever íntimo do amar

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