Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

segunda-feira, 21 de março de 2011

*Crônica: Achismo Conjugal

Eles se reencontraram, depois de alguns meses de separação. Fora ela convidada por um casal de amigos dele, que passou a ser mais próximo dela. Coisas de relacionamento. O fato é que se viam novamente naquele instante e o clima estava péssimo. Ela se perguntou porque veio. Pensou que o convite poderia ser mera polidez, mas concluiu, sem muito exigir de si, que, se fosse isso, seria em relação a ele, pois ela mantivera vínculos com o casal, enquanto ele se afastara. Foi a mesma conclusão a que chegara ele, obviamente, trocando os pronomes retos da oração anterior pelo seu oposto de gênero. Coisas de fim de relacionamento. A despeito do clima inóspito, não havia como não dizer nada, afinal eram adultos, ainda que rogassem um ao outro a praga da imaturidade. E essa se disseminou na calamitosa epidemia do “Bem, obrigada”. Ambos queriam mostrar o inverídico. Seus esforços de ego bradavam esse brocardo dos recém separados, esperando um lamento na contramão, para então se dar ao luxo de refletir sobre a já repensada e resolvida reconciliação.

A solidão dela se ocultava em uma linda lingerie vermelha, típica de quem tinha para aquela noite. Inseria-se o traje no contexto das peripécias de mulher destemida que contava às colegas casadas da faculdade, antes de voltar desolada para casa. Não via pinto há um bom tempo! Ao som de Adriana Calcanhoto, no vazio de seu lar o que fazia era tão-somente detonar uma caixa de bombom, enquanto criam as invejosas siririquentas que ela se sufocava em gemidos dentro de um luxuoso quarto de motel. Quando saia era somente postada em um salto 16, que a guiavam para uma liquidação de mais sapatos altos, a serem usados para dar altura a sua baixa auto-estima, tal qual fazia aquele PRADA. Ele desceu a Augusta, ouvindo Elvis Presley, que, no auge dos seus 100 kg, insistia em gritar no volume 18 do tosco player que compunha o grotesco visual daquele carro velho do seu igualmente velho amigo. Aquele cara era o guru da nova guarda de Peter Pans e tal título o fez sentir a necessidade de recorrer a tão sábio homem.  Ouvindo os preciosos conselhos daquele mestre, cuja voz contracenava com o já cansado tom do único mestre que lá estava, é que ele tentou se empolgar com os seios expostos por entre luminosos. O seu ímpeto viril, que lhe fez colocar as mãos fora do carro em movimento para apertar uma daquelas tetas, acabou quando a puta ofendida chamou o cafetão, que por sua vez chamou o policial coxinha, que por sua vez parou o seu lanche nervoso e foi bloquear o carro, para lhes dar uma coça junto com o gosto de comparecer ao prazeroso DP da região. Peter Pan riu, exaltou-se da adrenalina jovial de outrora; ele se sentiu um imbecil, mas fez cara de tarado, para mascarar a do trôpego veado que prestava mais atenção no “Love me tender” do que nas balbucias do Mestre dos Magos paraguaio.  Chegando em casa, tomou um porre de Jack e marcou um torneio de poker com os amigos. “Bem, obrigado” era isso que diriam.

- Como tem passado? Sentiu-se um velho falando com um antigo amigo.
- Bem e você? O coração dela insistia em bater mais forte, mas ela resistia. “Mero nervosismo típico de qualquer reencontro”. Embargava ela aos seus sentidos.
- Bem também.
Instante seco. O que dizer agora?
- Que calor né?
- É... Esse tempo é louco mesmo.
O tempo. Ah, dar uma de metereologista sempre é uma saída para as horas de mudez. Tentou vasculhar na sua lista de etiqueta "segunda opção para  momentos de embaraço". Lembrou-se do trabalho.
 - Como está no trabalho novo?
-  Tudo bem, caminhando, e você, como está lá?
Tudo havia virado uma questão de “e você?” e o problema, (grande naquele instante de vácuo) era quem perguntaria primeiro.
- Ah, tudo certo. Na verdade... Exitou. Contaria a ele? Saiu: Eu fui demitida.
- Ah, não diga! O que houve?
Não, não poderia dizer as verdadeiras razões.  Ninguém muito menos ele precisava saber que ele tinha algo a ver com isso. “Não tem nada que ver com ele” bradava ela, como um leão, a quem conjecturasse uma mera coincidência. Ela se dava outras explicações, mas agora se surpreendia coma reflexão ousada...  Verdadeiras razões? Foi exatamente isso que pensou. Trabalharia na terapia...
- Ah então sabe como é... Já estava meio de saco cheio. Mudanças são boas em determinados momentos da vida.
Aquilo havia tomado uma proporção diferente do esperado para ambos. Ela percebeu aflita a dubidade do que dissera. Ele engoliu com indigestão o único verdadeiro sentido que tinha aquela frase de tia avó: ela se renovara e naquela nova mulher não havia mais espaço para o velho ele. Percebeu ali consternado que a única coisa que queria era tê-la de volta, mas preferiu ignorar. Sabia que era melhor.. Ela, a seu turno, não quis consertar. Sabia que pioraria.
- Ah, às vezes é melhor assim. Foi a única frase que ele lembrou. Também de tio avô.
Tudo agora havia virado uma questão de “Ah”. Era a interjeição fática da prosa aflita para ver-se finda, mas ansiosa pela próxima interrogação seca. A verdade é que ambos queriam saber se o outro já estava com alguém. O que haveria se passado depois do triste fim. Necessário naquele momento, pensava ela. Ele achava não ser necessário, pois a amara, amava-a, ama-a ainda. Ele havia pensado em dizer trezentas coisas quando a visse. Abrira a boca apenas para dizer:
- Sinto muito. De fato, sentia muito mesmo mas não era pelo trabalho que ela perdera. Aquela expressão fúnebre para ele tinha outra conotação, mas ele não conseguia dizer. Sentia muito por não estar com ela, naquele momento certamente difícil. Aquele emprego era a vida dela. Ela se entusiasmava com a profissão. É inteligente, competente. Por um instante pensou quanto ela poderia ter chorado.

Foi lá que se conheceram. Que saudades que deu. Esbarraram-se na sala de café. Ela ía pegar o açucar e cruzou na frente dele. Ele ía pegar a colher do café e...
- Ai!
- Oh, me desculpe! Vou pegar um papel para você. Como sou desastrado. Desculpe-me. Que ridículo!

Agora parece tão ridículo. “Filho, eu e sua mãe nos conhecemos na copa, pegando café em uma máquina Nestlé que tinha até capuccino. Blah!” Não era certamente um início romântico e surpreendente para se passar a futuras gerações, mas para ele havia algo de belo... Gostava do inusitado, do cotidianez daquele encontro ridículo. Ele já a havia visto. Ela ouvia comentários sobre ele. Achavam-no um homem elegante. Ela discreta só ouvia, mas também o achava um tipão. 

- Onde você está?
- Como assim? Aquela pergunta o tirara daquele sonho real.
- Na Almirante Marques Leão, naquele meu pequeno apartamento. Mesmo Bat Local. Af! Agora ele estava sendo condizente com o ridículo daquele primeiro encontro. “Bat local?” De que filme dos anos 80 foi tirar isso? Mas ela sorriu. Gostava daquelas brincadeiras tolas.

E também teve um flash da cena do café, mas para ela aquilo não era ridículo. “Filho, eu e seu pai nos conhecemos no escritório. Foi tão engraçado. Ele derrubou café em mim”. Lembrou ao mesmo tempo da razão de sua demissão. Não podia ouvir aquilo dele! Ele sempre foi um ótimo profissional. Defendeu, sua reputação, ainda que acabasse com ela em cada papo calcinha. Soltou verdades entaladas de uma vez. O que tinha e o que nada tinha relação com o que ouvira a respeito dele. Gritou e colocou para fora sua solidão. “Tudo bem”. No seu conservadorismo e conformação pensava que já estava de saco cheio daquele lugar mesmo... Não sabia que o que lhe enchia o saco era não esbarrar com ele mais na sala de café. Como boa profissional que era achava que o dissociava do ambiente de trabalho. Como humana e mulher que se esquecia ser, sabia-se que não era possível. Aproveitou a raiva de não tê-lo ali e perdeu a compostura, aguardando sem surpresas a demissão que sucederia aquele desequilíbrio momentâneo que a fez gritar.

Fora lá... Depois ele aproveitou o ensejo e a convidou para tomar um café qualquer dia desses, que seria no dia seguinte para não perder o fio da meada. Prometeu que “esse ía ficar na xícara”. “Por que disse isso? Não havia nem xícara na máquina de café da Nestlé!” Depois de um tempo confessou a ela ter este pensamento sucedido aquele xaveco. ”Me senti um idiota”. Ela gostara da confissão e mais ainda do pensamento. Era o que gostava nele: aquele jeito paspalhão de os três patetas em um pateta só. Mas nunca tinha dito isso pra ele. Só para sua família, quando justificava porque foi se apaixonar por ele...

- Não, não me refiro ao local onde está morando... Digo onde está no sentido de o que está pensando. E riu já amaciada por aqueles pensamentos. Ele olhou aquele riso com saudosismo e ternura. Parece longe... Logo que completou a frase ela se sentiu oferecida. Tratou-o com a mesma intimidade que o tratava, como se aquela lembrança tivesse aproximado os dois. Deu-se conta de que não era real, de que aquilo era um pensamento dela, que ele não sabia existir. Sentiu-se estranha e perdida em outra dimensão. Esqueceu-se por um minuto que estavam separados. Recuou. Fechou o riso. Abriu-o novamente para ele não perceber nada. O sorriso era agora amarelo, maçante. Já não sabia mais o que fazer e ele, percebendo o desconforto do rir/não rir, salvou-a:
- Claro! Estava brincando. Sabia que falava disso. Ele e ela sabiam que ele não sabia coisa nenhuma, e o pior: ele sabia que ela sabia que ele estava tentando consertar, sair daquela situação embaraçosa. Por muitas vezes, ela brincava com ele em relação a isso...

 Depois de tentar limpar a roupa manchada de café, ela o perguntou de onde era. Como se não soubesse... Ouvira as colegas dizerem, mas estas perguntas de espelho fazem parte do jogo da conquista. Ele respondeu que era de Minas. Ela riu. Foi ali a primeira vez que olhou com ternura o sorriso dela, que se repetia agora naquele momento cruel.
- Não, de que área, seu bobo...
Ele, da mesma forma que agora, fingiu ter entendido que era. Estou brincando! Entendi sua pergunta. Sou da área tributária. E ela no seu dom natural da autenticidade replicou:
- Até parece que sabia. Não precisa consertar. Naquele momento, havia contexto para ela dizer isso.

Agora ambos fingiam que ele, de fato, brincava, mas sabia do que ela falava. Ele sentiu vergonha. “Ela sabe!”, mas, como se pudesse brecar os pensamentos dela rumo a constatação de que ele estava desconsertado, emendou:
- Ah... é... estava longe. Estava pensando em uns compromissos que tenho amanhã. Preocupações, sabe? Ele entendeu aquilo como um quebrar o espaço vazio, mas fez-se o silêncio e ele não entendeu mais nada. Esperava que a mecânica da conversa ia se seguir com uma afirmação ou dúvida a sair daquela boca que agora não sorria mais... Na verdade queria que ela quisesse saber o que o afligia naquele momento e já  pensava em uma deixa para falar da vontade de tê-la de volta. Iria ter coragem... “Compromisso de domingo? Ele sempre gostava de ter o domingo vazio... Dizia que precisava começar a semana bem e que... Com quem este filho da puta vai sair? Esse canalha já arranjou outra”.  A feição de seu rosto mudara em consonância com aqueles pensamentos, sem que ela se desse conta. Ele, novamente, empreendeu-se naquele esforço de decifrar sua mente, mas não conseguia pensar nisso e planejar a deixa... Esqueceu a coragem e preferiu se lamentar pelas coisas que disse. Certamente, ela o teria achado patético por aquelas triviais imbecilidades, peça que seu nervosismo lhe pregava.
- Sei sei sim...   Canalha! Era o “Canalha” que queria dizer, mas no cinismo burguês proferia somente aquelas três palavras apáticas.

- E você está namorando? Ela se surpreendeu. Ele também... Conseguiu!
- Ainda não. Respondeu ela subitamente movida pela breve raiva de suas conjecturas sobre o corpo belo da mulher com quem ele já preparava o noivado, sem sequer poder exasperar o interesse nela e o possível esforço que o conduziram àquela pergunta difícil.
Canalha. Deve ser aquela oferecida que o procurava. Risos de auto-convencimento saíram forçados de sua boca que ele não cansava de olhar, sem nem imaginar o que dela ela impedia de sair.

Por um momento ela deu uma trégua a ele e a ela mesma. Hasteou a bandeira branca, acatando os apelos do seu psiquiatra que acenava para ela de longe... Foi a duras penas, representadas por inúmeras tardes no divã, que seu médico conseguiu fechar a mala. Colocou no seu cérebro mais dois itens e sentou sobre aquilo, no desespero de caber tudo que fosse necessário para a viagem...  A empreitada teve seus percalços, contudo. A naturalidade foi esquecida na bagagem de Mão e ela sentiu necessidade de dar cara de "sim"ao "não", sem atinat. Aquele assunto nem seria objeto da sessão...
Ainda não? Desde que terminaram, ela saiu duas ou três vezes. Até chegou a refletir sobre sair com o Eduardo, por pressão das amigas do trabalho, mas não agüentava aquele papo granfino e mesquinho, o que a insuflou em sua decisão de falar poucas e boas no trabalho... Mas agora esse babaca era em quem ela pensava para dar tom de realidade à sua mentira. Ele queria saber o porquê do "ainda". Irritou-se em imaginar que aquele oportunista nem sequer deve ter esperado o defunto esfriar. Como chefe dela, o Eduardo poderia ter se aproveitado da situação. Era ele todo granfino... Certo que se aproximou dela para consolá-la, levou-a em restaurantes caros e... Ela bem que gostava dessa mesquinharia! Foi ao imaginar as mãos dele tocando no corpo dela que respondeu com brutalidade:
- A fila anda. É assim que tem que ser.
Ela chorou por dentro, enquanto balançava sua cabeça verticalmente em sinal de concordância. O seu terapeuta não era mágico e contra um abalo sísmico não havia preparado a mente pendente a auto depreciação. Ela se convencia de que imaginar uma outra na vida dele agora era influencia do diabinho cabeleireiro que toda espécime do sexo feminino carrega em si, quando ele deu a tesoura ao diabinho, abrindo espaço para que a bicha lhe repicasse o cabelo, que na vida de uma mulher é sinal de transformação psíquica. Ele jogou no ventilador e a merda se fez completa:
- É questão de tempo... Bom, vou indo!
- Eu também! Foi bom te ver tão bem.
- Digo o mesmo.
Os dois foram a cantos diametralmente opostos da festa, onde passaram a planejar suas novas vidas, após os foras que receberam um do outro. “Ele já está com outra. Sei, porque me disse”. “O Eduardo comeu, certeza. Ela deixou nas entrelinhas”. Foi assim que contaram a sua história que ali se acabava. Finda a festa, foram para suas respectivas casas e sonharam com a máquina de café. 

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