Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

terça-feira, 22 de março de 2011

Inexplicável fissura

Enquanto não me ver aqui não saio da frente.
Sou insistente e tenho algo a relatar.
Eu amei você e tanto.
Que qualquer santo já sabe ditar

Recitam eles até de trás pra frente
Cada repente das minhas orações de ninar
Foram tão intensos os clamores
Que os mais sábios doutores tentaram tratar

Naquelas noites de sono
Me doía o abandono e a incapacidade de poder sequer sonhar
Tripudiava comigo o dia
Ao nascer com alegria em contraste a minha escuridão

Quantas vezes chorei no divã, ao visitar o mais alto clã da medicina psiquiátrica,
Das ervas fitoterápicas, sei catalogar até as espécies mais nobres
E pobres dos psicólogos que tentaram os benditos florais de Bah
Para impressionar nem precisa dessa melancólica quizumba?
É só dizer que nem macumba foi capaz de sanar

Tomei todas as nossas taças do velho cowboy
Tirei as traças das fotos só para ver de perto você
O playboy carioca e a falsa dondoca
Só podia dar certo em comercial de tv.

Analisei cada pormenor
Mas acho que sei de cor as formas e cores mescladas na tinta
Fato é que não há conclui por alguma efetiva diferença
Que uma reles masculina presença já não tivesse trazido pra mim

Minha luta está longe do teu entender
De fato não compete a mim explicar as artes do meu proceder
Confesso que não consigo aceitar a sua ausência de futuro
Minha vida não me permite atirar no escuro, como você pode fazer.

Não é só seriedade em excesso
Qualquer passo em falso para mim é regresso 
Gostaria que pudesse compreender
Mas se para você a incerteza é aventura
Se meta nessa sua loucura com alguma real baronesa
A plebe agradece a solidão da batalha.

Inexplicável fissura
Que encheu de amargura as gotas daquele saboroso cowboy
Indecifrável burrice
Que regrediu a minha tão custosa expertise aos seus efêmeros anseios de sábado à noite.

A carência e a segurança ou se completam ou se corrompem
Irrompem-se revoltas privadas quando não se enxerga a luta interior
E há de fato tão imponente batalha travada contra si mesmo
Elas não se bastam. A omissão dá eloqüente fervor as discussões infindáveis

Apontam-se erros esquecidos e fraquezas há tanto caladas
Travertem-se em apatia sentidos e certezas há pouco formadas
Contidas se tornam as palavras de amor
Temem a irreciprocidade e a auto-exposição

Colocam-se no vazio da insegurança os carinhos
E o fato de só haver lembrança de bons momentos dói
No alvedrio se insere a comodidade
E a saudade de nós é só uma faceta do esquecer a si mesmo
Deixa-se de lado o dizer
Deixa-se de lado você

Minha carreira ficou de lado, tal qual o meu eu
O trocaria por um inventado recado de que gostava de mim
Me satisfaziam balbucias inexatas
Bastava que entendesse nas entrelinhas das suas dificuldades de expressar-se

Já que não houve terapia
Já que esquecer os momentos já é utopia
Eu vim aqui pra te ver

Passe bem com seus amores
Essas são as contas dos doutores que você tem que pagar
Eu quero meu travesseiro de volta
Conserta o batente da porta que você mesmo fez ceder
Naqueles devaneios de insanidade
E também, a bem da verdade, naquelas horas de prazer

Nem quero lembrar dos sussurros pudendos
E nem venha com podres lamentos
Não quero te ouvir

E se você vier com graça
Ou com esse tom de ameaça
Da sua máscara vou te despir

Dizer-lhe umas boas verdades
Umas tantas maldades que guardei no meu notável particular
Se encher muito a paciência
Vou revelar a falta de decência do seu jeito de agir

E no final desse teatro
Vou lhe dar o retrato que guardei de nós dois
Preciso gritar que te amo
E se ainda reclamo é porque não consegui te tirar daqui

Conserte o batente da porta, que deixarei aberta para você voltar
Devolva o meu travesseiro para que durmamos juntos no nosso altar
Brinquemos de decifrar na foto as cores mescladas em nós
Na cabeceira da cama quantas taças do doce cowboy lançadas ao azo do mais profundo prazer...
Não precisa dizer mais nada. Vivamos suas aventuras, que amanhã eu volto para o trabalho e você à sua vida de playboy.
Só mais um dia, não há de matar.
Mas ao ir embora, deixe pagas as contas médicas do próximo mês. Acho que eu vou precisar...








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