Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

terça-feira, 22 de março de 2011

Ao meu avô



Aqueles tristes olhos azuis.
Outrora risonhos e radiantes,
perdiam a cor, tornavam-se cinzas.
Viam o mundo em cinzas.
Cores tenebrosas.
Tons entre pretos e roxos gritantes.
Já tinham visto de tudo.
Viram guerras e confusões,
lutas por terras e revoluções.
Assistiram a entrada de Getúlio.
E a saída Getúlio.
Presenciaram a decadência do mundo.
Preferiram ter sido cegos algumas vezes.
Fecharam-se.

Aqueles olhos azuis desviavam-se da realidade.
Viviam, nos sonhos, outros mundos de magia.
Que este mundo não entendia,
Que este mundo não satisfazia.
Tudo de bom que os olhos guardavam.
Tudo de ruim da verdade esqueciam.
O sorriso do amor. Um grito de dor
A lembrança da criança que crescerá...Partirá.
Queriam mesmo ser cegos para algumas coisas.
E foram.
                                   Aqueles tristes olhos azuis já não olham mais.
Estavam cansados de verem coisas repetidas.
Tinham esperança de mudar, mas...
Perderam-na.
Achavam que o país poderia mudar.
Achavam que o mundo ia mudar.
Pretensões!
Hoje, preferiam ver o mundo em preto e branco.
Repudiavam as cores da modernidade.
Adoravam se misturar com tecnologia.
Muitos avanços, máquinas, facilidades...
Hipocrisia.
Sendo assim, preferiam o mundo com as cores de Chaplin.
O mundo mudo que falava tudo sem palavras. Agia!
Aqueles tristes olhos azuis temem os jovens.
Acham-nos fúteis e descompromissados com a sabedoria.
Foram ingênuos; viam os guris de hoje tão sabidos, sem saberem nada.
Sabiam o que não precisavam saber.
Perdiam assim a curiosidade e a pureza que eles conservaram.
Eles sim foram jovens.
Na contrariedade de conseguir ter a óptica da sensatez dos homens sérios,
E por hora, a da ansiedade dos loucos imaturos.
Achavam na aparente divergência, um ponto comum.
Os conceitos, não se opunham, se somavam tornando tudo mais complexo,
E talvez menos unilateral.
Sabiam o que queriam e lutavam, até cansarem.
Aos poucos a visão tornou-se embaçada e confusa.
Perderam os objetivos. Ver o progresso? Fantasioso regresso.
Será que mesmo velhos enxergavam?
Eles que estão cegos e os olhos desmotivados!
Aqueles olhos azuis fecharam-se lentamente...
                                                   Voltaram a ver a vida sob cores coloridas.

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