Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

domingo, 22 de maio de 2011

Adeus

Doem os móveis aqui dentro de casa. O relógio me conta que sua hora não passa. Me tiquetaqueia nossas memórias devagar. Eu quero fugir desta sala de estar, em que há um pouco de nós dois emoldurados em esquinas das mesas, porque não tenho certeza se você vai voltar. Nada quis esquecer você por aqui. Me questionaram a não ouvir suas noites sem sono, em um dos dia de abandono em que eu lhe traía com papéis. Roupas em branco, sorrisos abertos, brilhavam nossos anéis. Desejei olhar bem de perto você para comparar a foto com novas marcas do seu envelhecer que queria fosse nosso. Não posso mais. Quantas vezes você não olhou para aquela fotografia da cabeceira? E quantas vezes a noite não se fez mais fria e traiçoeira, porque eu não pude aquecer teus pensamentos truncados em suposições? Agora parecem roucas minhas explicações. Você tem direito de conjeturar haver amantes neste meu semblante de culpa, que não foi sua.

Amor havia e ainda há, e se é isso que te fará voltar, pode vir pode vir...
Amor há e haverá, e se por dúvida que você fez me deixar, pode confiar em mim...

Eu tenho orado tanto para o tal de homem Santo a quem você me ensinou a rezar. Almejando encontrar você na minha prece e que eu silencio e peço que regresse como se pudesse me escutar. Eu vejo a vida toda errada. A casa, a alma bagunçadas fazem duro o meu penar. Não foi por desleixo que deixei tudo como está. Era a última cena do seu adeus, que eu achei você ía ter de reensaiar.

Amor havia e ainda há, e se é isso que te fará voltar, pode vir pode vir...
Amor há e haverá, e se por dúvida que você fez me deixar, pode confiar em mim...

A flor sobrevive já no raso. E emudece os dias em que você fez chuva no seu vaso. Dias em que eu esquecia de chover...  Sem prosa, eu saía para ter mais. Você me pedia calma,  e uns minutos de paz diante daquela linda rosa que eu lhe dei. Ela agora insiste em viver sem reclamar a ausência da tua natureza, porque talvez também não tenha certeza de que você vai voltar. As teimosas cortinas ignoraram o pedido que fiz a elas, fazem relances de você na janela, a me acenar um falso adeus. Mal sabia que já ensaiava o final dos erros meus.

Amor havia e ainda há, e se é isso que te fará voltar, pode vir pode vir...
Amor há e haverá, e se por dúvida que você fez me deixar, pode confiar em mim...

O chão calou os passos de rotina e tornam minha sabatina algo menor duro de viver. Mas toda hora me deparo com a cor do cedro que você insistiu, aquela estátua dura e hostil que você quis por para afasta o mal olhado. Ele chegou por aqui, com o seu recado de partida e fez a moldura colorida perder um pouco da sua cor. Tudo aqui agora um pouco branqueou. E assisti nós brigando pelo tom da parede. Discutimos o som da sua sede, nas noites acordados em nossa tv, com quem você cantava o borderô do comercial. Namoramos ao som da vitrola do seu avô que também fizeram dormir no seu colo o melhor ritual do final de semana. Agora eu que divido a cama com o meu desespero. 

Amor havia e ainda há, e se é isso que te fará voltar, pode vir pode vir...
Amor há e haverá, e se por dúvida que você fez me deixar, pode confiar em mim...

Errada

Meu quarto não foi rosa, não sou mulher de muita prosa, sempre gostei do breve do branco e azul. Minha história não é das mais corretas, angu é minha comida predileta. Eu me entrego a um bom som de blues.
Gosto de um quê de poesia, me faço forte mas me afundo em covardia, ao fugir da vida ali encontrada em um bar. Não há nenhuma cara metade, o meu cara não passou da puberdade. Eu odeio filosofar...

Notícia de Amor

Ele falou baixo no ouvido, palavras secas sem sentido. Eu ainda não sabia que iria me apaixonar.
Quando o vi naquela tarde, com um olhar vestido de ansiedade. Pensei vai se declarar.
Ficou a esperar na frente da minha vida e eu em instantes mudos desfalecida, não podia acreditar 
Chegou naquela tarde apressado, porque a noite toda pensou neste recado.  Ele iria se casar.

sábado, 14 de maio de 2011

Um pouco dele

Pensei que a minha história também poderia estar ali. Afinal, tinha o mesmo requinte. Na verdade, tinha mais que elegância. Tinha um quê de impossibilidade, o que faz qualquer narrativa de amor mais romântica. Salve as novelas globais... Era incrível a semelhança do pano de fundo e tinha medo de que minha vida acabasse como a narrativa daquele livro. Intuía o fim, porque sabia exatamente onde encontrava falhas no que eu vivia. Sabia, diferentemente do eu - lírico que ousava crer que as diferenças se somam, que as diferenças ora ou outra se fazem irritantes.E a distância... Mais cedo ou mais tarde apertaria o calo. Éramos extremamente diferentes e tive conhecimento disso, no exato instante em que ele cruzou a minha vista ávida por um momento de deslumbre com uma beleza peculiar. E era isso que loiros de olhos azuis faziam comigo. Sei que os nórdicos são senso comum a brasileiras de pele morena, mas não era o trivial que me encantava nele ou em qualquer outro homem daquele tipo. O que me imantava era a mistura entre o incomum angelical de seus rostos (anjos são sempre loiros, não são?) - que beiram até ao delicado feminino - com a virilidade do ser homem, coisa que ruivos, morenos, carecas, loiros ou grisalhos carregam com o falo. Não sou lésbica, acreditem, mas a beleza que me fascina é a que une aspectos que deveriam conflitar-se. Esperar algo do meu gênero em um homem não me causa mais embaraço ou duvida quanto a minha sexualidade, ainda que me faça admirar cada vez mais os gays. Os homossexuais foram os primeiros a perceber como tornar complementares contradições aparentes. Daí, abriram espaço para que  alguns de nós - grupo ao qual eu me filio - pudessem usufruir do pote de ouro descoberto pelos donos do arco-íris, sem ter de "virar" gays (ainda que eu particularmente ache que  isso tenha ocorrido com uma boa parcela de indivíduos tão-só confusos e desconcertados com a genealidade da descoberta). Hoje, para ser homem é preciso saber o que é ser mulher e vice-versa. Para a maior parte das mulheres, sensibilidade é um a mais, que não se espera do macho. Se se tem "melhor", se não "paciência, era de se esperar". Para mim, contudo, não é um mero opcional, é um item de fábrica. Ou se tem ou tchau. Sou muito sensações e emoções e estar com uma pessoa que não as viva com intensidade é  inimaginável. Homem só é homem, a meu ver, quando não diz que lágrimas nos olhos vieram por conta de um cisco... Caso contrario, é um machista ou hipócrita, coisas com as quais não me esforço em lidar.
Anjos são sensíveis. Anjos são loiros. Loiros são sensíveis. Meu silogismo fazia sentido. Era uma lógica imbecil, não boto em discussão, mas não totalmente despropositada se avaliarmos os condicionamentos e pressupostos mentais plantados na nossa cabeça. Quem disse que Jesus era branco de olhos azuis? Por que beleza está atrelada à magreza? Assim como muitas tantas, aquela analogia estúpida - talvez feita na minha infância - foi se propagando pelos tempos e se consolidou. Fez-me atraída fisicamente só por aquele espécime nórdico. Ainda que a dádiva daquela aparência seja sujeita a confirmação/denegação psicológica, eu sempre os achava sensíveis, quando os via. Independentemente das minhas tentativas malfadas de convencer vocês de que há ternura nos loiros, a única coisa que deve ficar claro é que era a antítese dos seus ares celestes em trajes mundanos que me encantava. Ele era o paradoxo em pessoa. Era evidente que olharia para ele com fascinação. Amiga, você viu aquele cara? Ela riu e respondeu "seu número". 
Dois metros e quinze de um corpanzil descompassadamente belo cruzaram sobre o meu caminho. Sempre odiei homens altos, mas sempre adorei os estranhos e isso inegavelmente se é com esse tamanho todo. Seus gestos afoitos e desengonçados o faziam como tal. Movimentos bruscos se alternavam com sua voz calma e doce e aquilo fazia de sua enorme existência um tanto quanto enigmática. Sua risada efusiva e apetitosa era uma daquelas que você faz graça para ouvir de novo. Era um ruído gostoso e suave que eu não me cansaria de ordenar com o afã de um maestro. Sentia dó daquele rosto triste, ao mesmo tempo em que aqueles milhões de centímetros de um corpo avassalador me traziam uma segurança máscula. Não tinha como não se enebriar, pois eram muitos detalhes naquilo tudo. As tatuagens e o moikano tentavam transparecer uma força que na verdade ele não parecia ter.  O ar fechado de sua feição se somava aquele contexto, mas eu achava tudo aquilo bobo. Achei que o exagero beirava à total fragilidade e dúvida do que se era. Ele me passava imagem de infantilidade. Eram informações dissonantes que trazia. Ele precisava quebrar a delicadeza de seus traços harmônicos com um ar de coisa mal feita.  As roupas rasgadas brigavam com o seu rosto de nariz fino e lábios retilíneos desenhados com perfeição. Ele era belo, mas queria ser fera.
Era um soldado americano. E esta novidade trouxe toda carga negativa que poderia. Relembrei os meus professores de geopolítica e meu avô - que preferia falar /jás/ ao invés de jazz por crer que o acréscimo do nosso vocabulário com palavras que poderíamos produzir com os sons locais era bajulação desmedida.  Achava que meu avô estava certo. De todo modo, não era bem isso. Nunca gostei de pessoas condicionadas a seguir ordens sem qualquer questionamento prévio. Era exatamente isso que, no geral, membros da infantaria faziam, sim senhor. Um dia - na verdade depois de muitos dias de receber ordens como vaquinhas em presépio - começavam a mandar e compensavam com a raiva de capitão Nascimento as babaquices, elevando seu nível, para deixar marcas de superação. Era meu jeito de ver o exército, certo ou errado era o meu jeito. Se isso já é ruim por si só, é pior com os filhos do tio Sam que justificam não só no seu pelotão, mas no desenvolvimento civilizatório, as suas barbáries. Não posso negar que o ufanismo é algo que admiro neste povo do lado de lá - até porque acho que explica em muito as mazelas do Brasil e o nosso conformismo - mas acho que o amor a pátria só existiu com os colonizadores natos. Foi, rapidamente, convertido em xenofobia e arrogância e isso me fazia odiar norte-americanos. Fez-se mais eloquente todo meu discurso das contradições, quando soube que era do grupinho camuflado. Eles querem ser algo que no fundo não são. Sempre os imaginei armados até os dentes a chorar escondido no banheiro por causa de um amor. Tipo um emo em trajes de guerra. Era assim que gostava de pintar a cena e, tendo ele como personagem, a imagem era exatamente perfeita.
Tive vontade de zombar dele. E aquela tentativa ridícula de dançar samba fez impossível não fazê-lo. Comecei a imitá-lo. Desinteressei-me por alguns instantes, mas ele me puxou novamente, ao também  imitar o jeito que eu segurava o meu copo de cerveja. Às vezes, o feticiço vira contra o feiticeiro e aquele era um dos dias em que a minha fragilidade estava, de fato, travestida em um longo copo de álcool. Ele me fez sentir vergonha e raiva e isso era um bom começo. É... Eu sou estranha. Tinha todos os motivos do mundo para achar que não deveria conversar com ele: soldado, americano, americano e soldado. Para mim já bastavam todas as quatro razões. Mas, estranhamente, não me arrependi de ter começado o papo, não só porque ele em nenhum momento me xavecou (o que me deixou possessa), como também porque o "soldado e americano" eram coisas que ele quis esconder a todo tempo, não fosse seu amigo  BRA-SI-LEI-RO, que fez questão de falar ("Somos da Army"), ruídos que logo o fizeram torcer o nariz, com olhar de repreensão. Sua pele branca chegou a corar e ele, querendo disfarçar, bradou, com ironia: "Nossa, que orgulho!". Ele não só dizia não saber o que :fazia naquele depósito de músculos e armas - que só nesta exata medida combinava com ele - como também era claro que seu jeito rebelde e desencanado nada tinham de patriotismo e preocupação com a bandeira estrelada. Percebi logo que só o corpo dele se ajustava àquele pequeno mundinho de soldadinhos de chumbo. Distrai-me um pouco, propositadamente, ao sentir o silêncio estranho de conversas como aquela doer os ouvidos. Olhei à minha volta, buscando um assunto por ali, para prosseguir aquela conversa. Foi quando me deparei com uma grande foto de Fidel, logo acima do ecoar de suas palavras. Ri no canto da boca e lembrei. Estávamos em um bar cubano! Aquilo não poderia fazer mais sentido (ou melhor aquilo não poderia ser mais sem sentido). Ele era o paradoxo em pessoa.  Fiz uma reverência mental à Estátua da Liberdade, em agradecimento por aquele momento bizarro, que são os que verdadeiramente tornam a nossa vida interessante. E foi aí que tudo começou.
Esqueci de contar que não é só o aspecto sensorial que me causa desassossego frente a um homem. Eu precisava de boas idéias e isso dependia de um cérebro em uso. Gostava deste item de série que agora costumava vir como opcional de fábrica, sem grandes espantos dos consumidores. De fato, já passaram por mim muitos branquelos alourados que nem percebi direito, simplesmente porque eram só um corpinho bonito, mas vazio. Além do órgão pensante, eu precisava de um desafio. Não me entretiam homens bem resolvidos. Depois que finda a relação com alguns desses, não sabia o porquê e retava. Novamente juntos, não tinha vontade de estar ali. Era melhor que não fosse assim, mas o que fazer? Faltava algo sempre, mas demorei muito tempo para perceber e/ou assumir que era essa característica, que eu sempre disse necessária, que me causava algum desconforto. Eu precisava ter um probleminha para resolver... Era isso que divertia a psicóloga nas horas vaga que eu sempre cultivei dentro de mim.
Como todos têm problemas, esse quesito  (algo mal resolvido para eu exercitar meu cérebro em tentativas vulgares de decifre) era logo preenchido e eu começava a investigar a minha cobaia. E me achava boa naquilo. Sempre que conversava com um amigo me sentia ótima "profissional" ao ouvir "nossa nunca tinha pensado nisso". Eu fazia isso rapidamente. Prestava atenção em alguns trejeitos e olhares, questionava coisa ali e coisa aqui e vinha com uma tese infalível tipo horóscopo. Sempre colava. Sempre que falam uma coisa sobre você é natural que, mesmo descrendo e achando absurdo, você fique com uma pulguinha atrás da orelha, para saber por que causou esta impressão na pessoa, a não ser quee você seja super seguro. Eu não era e sei que boa parte das pessoas não o é, muito menos um soldado inevitavelmente inexperiente nas artes das dores e manifestações de afeto, até por exigência e necessidade de sobrevivência naquele ambiente inóspito à sensibilidade. Eu jogava na mesa as minhas cartas, num blefe, diante de um jogador café com leite. Era vitória certa. Ainda assim, fique claro que eu não permitia que o mesmo acontecesse comigo com facilidade, a não ser que meu parceiro de pôquer já conhecesse meu jeito de jogo. E, na verdade, quem me  conhecia bem não ousava me criticar sem muitos dedos e palavras já muito reduzidas. Uma coisa era certa: eu era boa observadora e tinha sempre cartas pesadas nas mangas. Iria doer, porque eu ía rebater em progressão geométrica. Não valia o cansaço... Eu era uma pessoa difícil de lidar e de alguma forma era isso que eu queria ouvir da boca de cada um dos homens que eu prendia com camisas de força no meu divã. Adorava desvendar as razões freudianas - ainda que não tivesse lido um só livro dele.
De todo modo, não precisa ser  muito inteligente, para saber que atrás de trejeitos a sempre histórias ou traumas. Os deles não precisavam de muita atenção, pois saíram em frases prontas da sua boca. "Não falo com minha mãe".  Ele era um prato cheio aos meus desatinos acerca do complexo de Édipo... Péssima relação com a progenitora era igual a mágoa pela separação dos pais. Recém divorciado, com evidentes medos de relacionamento. Era o eu diagnóstico para o "o casamento é o começo do caos" que eu ouvi dias depois. Estava na hora de começar a trabalhar.
Não me arrependi de começar aquela conversa justamente porque ficou claro que ele não estava no exército por amor a Obama. Disse que, bem diferente do que pareciam os seus homens de seu pelotão, no geral, ou eram idiotas, loucos e ele se fazia questão de se incluir no segundo grupo (ainda bem). Para mim, viciada na necessidade do caos, havia algo mais. Era uma fuga... Era mais gostoso pensar assim. Tinha tudo para me apaixonar.


Não esperava mais sentir isso, contudo, porque este sentimento é algo que se tem uma vez na vida - já ouvi isso de grandes sábios - e a minha já tinha existido. Não se vê mais no fevereiro de 2011 o mesmo colorido que se fez presente no de 2010 e os novos foliões, neste ponto, pagam pelos antigos - que fizeram arruaça, em outros carnavais. Isso tem tanto sentido, na minha vida, se soubessem... Enfim, a paixão não era mais possível e espero que você ainda não tenha se apaixonado, porque saber que este sentimento é tipo catapora não é nada agradável e tira um pouco da sua mágica. Amor, contudo, ainda poderia despontar, mas, a duras penas aprendi que nem sempre ele corresponde a "estar junto". Estar com alguém que se ama está condicionado a uma comunhão de afinidades. Nós não tínhamos...

sábado, 7 de maio de 2011

Caixão sem gavetas

Citadina, suburbana sempre rumo ao seu caos. Sem perrengue a semana não segue o turno normal. Saí que é hora de trabalho. Vai que é dia de salário. Tá na hora. Tá na hora. E a vida no campo? E cadê o descanso?  Não tem hora. Não tem hora. Um dia vai se aposentar... Mas agora, a casa tá cheia. A madrugada está lisa, mas você não "pode" cair. A noite é convidativa e você "tem" de seguir. Papéis, anéis, a propaganda mostrou... E você quer. É dia de hora extra. Mas a vida não tem extra, parceiro. É dia, hora, minuto, segundo contado no óbito. E o Chefe não dá um milímetro a mais de existência, ainda que você queira trabalhar. Ele só respeita as Leis, mas agora não era isso que você queria... Só choro e só vela. Não deu tempo da aposentadoria. É hora do enterro. O povo debruçado no corpo pensando na palavra calada, que precisava de um minuto mais. O que não foi dito vai fica no sopro, na culpa, na vida desgraçada de quem fica. A vida só tem de impossível a morte, ainda que vejamos coisas todo dia que pareçam clamar este status. E quanto valeu o seu labor? E os dias que você esqueceu de dar amor aos seus filhos que lhe aguardavam para o jantar? Ele queria saber onde estava o pai. A mãe orgulhosa dizia que você era um homem dedicado. E era mesmo? Ao que? O filho não entendia. Preferia menos daquilo e mais disso. Mas cresceu e repetiu o "acerto" de vida que dele se esperava. Lamentou cada segundo que seu pai perdeu, lamentou cada momento que ele mesmo esqueceu de que agora é a sua hora. O seu caixão também não tinha gavetas...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Lual e Prece

Sentado na praia vontade que dá de sentir o sopro, o gosto do mar. Nadando nas ondas vontade de mais, de um muito que é pouco, para quem não tem paz. Areia é veia de canto. Minha casa é cheia de pranto,então eu só queria ficar. Arreia na ceia o manto. Minta e faça sereia um encanto que nos permita voltar. É dia de Lual. É dia de Luar. Eu posso fingir que sou outro. Posso sentir que o encontro não vai se acabar. Esquecer meus minutos de dor. Agora é a hora do amor poder me doer. Só quando amanhecer eu volto para o meu calabouço. E lá que enfrento meus monstros, quando lembrar o que me fiz esquecer. Acabou o Luar. Acabou o Lual.

Cercado de vaia eles querem que eu vá, e é só o desgosto que me permite lutar. Remando na vida o cansaço se faz, o pouco é muito, para quem não tem próprio cais. Centenas do vilarejo não sabem nem ler. Daí porque o desejo de às vezes esquecer, e eu só ía tentar... Sem pena, o sertanejo se entrega ao morrer. Cai no cortejo pra tentar escapar. É dia de Pressa. É dia de Prece. Eu não posso mentir quem sou eu. Não posso acenar um adeus. Devo lembrar os instantes de  amor. Agora é a hora da dor ter de amar. Só quando escurecer eu penso na mentira. E lá que me iludo com falsa epifania, quando esquecer de lembrar. Acabou a Prece. Acabou a Pressa.

Sentado na praia...

****Crônica: Altruísmo

Quem explica as travessuras dele? Menino criado no leite com pera. Tudo do bom e do melhor. Mas o danado, deu pra ser capeta mesmo. Não deixava ninguém parado. O silêncio era tão incomum que doía muito no ouvido, quando ele saía. O bicho era o demo, o erê. Na verdade, esses o aplaudiam e sentavam com ele para ter aulas. O safado até falava: "Mainha, você não viu nada... Eu que ensino este seu tal de bicho papão a assustar". Veio o juízo não sei da onde. Foi ela. Casou, estudou, virou patrão. E como em casa era ela que encarnava o capeta, ele descontava sua energia no lombo dos funcionários. Ixi se alguém fazia algo que não gostava. Não gritava, não blasfemava, nada. No outro dia esperasse... Lá estava alguma gozação baixa. Sabia o ponto fraco das pessoas e investigava as particularidades e segredos de cada um para ter o que falar, caso precisasse. Precavido, ele era precavido ainda que a maldade nunca lhe tivesse resvalado. Nunca foi assaltado, não foi traído nem magoado, mas não se sabe como sabia extamamente como perpetrar cada um destes verbos. Era mal caráter. Nasceu com a coisa ruim mesmo. Era armado até os dentes com tentativas de invasão da sua vida, mas não havia escudo que o impedisse de sondar a vida alheia. Traições, escapadas, noites de loucura dos mais competentes empregados. Conhecia todos os traficantes, prostitutas e picaretas. Foram seus companheiros no passado. O cara virara rei, com o conhecimento de plebe. Tinha a aparência de alta classe, mas convivia com os mais baixos escalões da sociedade, que o muniam com todas as histórias necessárias a rebater atitudes que julgasse incorretas ou irreverentes. Só ele podia ser irreverente. E ninguém se atrevia a bater de frente com o monumento que ele estatuiu em torno de si. Só ela. Chegava em casa, ía preparar a janta. Ela estava cansada e ele se convencia de que não havia qualquer submissão nisso. Era gentileza, sou um homem moderno. Todos acreditavam... Como aquele cabra vai aguentar mulher mandando nele? Há! Amor, você não quer ver aquele filme que estreou comigo? Puta que pariu, Alexandre, depois do meu dia agitado de trabalho, você ainda vem querer ver aquela porcaria de arma pra cá, tiro pra lá... Como você aguenta, homem de Deus? Amém, meu bem. Era assim que lidava com o boi Zebu: não retrucava. As mulheres são pior que as mitralhadoras daquele filme que queria assistir. E aquela, meu caro... E com este discurso da preguiça, o mal Macunaíma justificava a inação. Se começasse, era dor de cabeça por muitos dias, amigo. Dele e dela que ía levantar a lebre cada vez que ele quisesse pular da ação das telas para outro tipo de filminho... Mas a irmã da Marisa era madrinha do filho do Geraldo, que era cunhado do Fábio, que saíra da empresa. O Fábio era um cara sempre tranquilo. Pacato, pacato. Mas um dia, "pisou na bola". E errar com aquele cara, é pedir pra sair, parceiro. Fábio nem esperou. Chefe, eu me demito. Não, Fábio, você é um ótimo funcionário. Exijo que fique. Mas, é que patrão, eu... Eu já sei Fábio, sei de tudo. Você quer ou não ficar? Claro! Claro! Mas o senhor, sabe mesmo? O que acha? Está me chamando de bobo? Está me achando idiota, Fábio? Não, imag... Demitido! E riu como o Justos, ao ensaiar para o "Aprendiz". Fábio se zangou e entendeu a peraltice. Engoliu. Deglutiu. Mas vomitou. Ninguém estava no escritório aquele dia. Ele estranhou. Olhou para os lados e imaginou que no mínimo o metrô dos suburbanos parou. Subiu na sua larga sala e ninguém apareceu. Pensou em trocar o papel higiênico dos banheiros aquele dia, mas desistiu porque a rebeldia não devia gerar concessões. Deveria ser punidos. Chegou em casa, cabreiro. Eram mil planos na mente para amanhã. Não deu tempo. Todos sentados na sua sala. Era seu aniversário e nos auges dos seus cinquenta e dois anos, aquele era um acontecimento que ele não mais lembrava. Nem imaginou a surpresa, mesmo porque sabia que ninguém tinha motivos para querer fazê-lo feliz e - justamente por ter se esquecido de pensar nisso, quando ainda dava tempo - aprendera a fazer da sua alegria a desgraça alheia. Aquele era o dia do vice-versa para todos menos para ele, porque a alteração dos fatores resultava em um novo produto que ele desconhecia. Sentiu-se injustiçado. Parecia nu diante de todos. Foi como se sentiu. Engoliu. Deglutiu. E se cagou. Todos sentados com a mulher dele, inclusive o Fábio, que foi quem preparou a festa, "em agradecimento aos prazerosos anos de trabalho". Foi o que constou no cartão. Riam, riam e riam sobre suas histórias desmistificadas por Marisa, no exato momento em que a trinca da porta virou e ecoou um vigoroso "surpresa" e se segurou o "canalha" nas gargalhas, que eram mais polidas, mas não mais sutis. Foi a única vez que sentiu a ironia, que, contudo, muitas vezes fez sentirem. Cinquanta e três anos... O altruísmo tem seu lado sórdido.