Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

terça-feira, 26 de abril de 2011

****Crônica: Altruísmo

Quem explica as travessuras dele? Menino criado no leite com pera. Tudo do bom e do melhor. Mas o danado, deu pra ser capeta mesmo. Não deixava ninguém parado. O silêncio era tão incomum que doía muito no ouvido, quando ele saía. O bicho era o demo, o erê. Na verdade, esses o aplaudiam e sentavam com ele para ter aulas. O safado até falava: "Mainha, você não viu nada... Eu que ensino este seu tal de bicho papão a assustar". Veio o juízo não sei da onde. Foi ela. Casou, estudou, virou patrão. E como em casa era ela que encarnava o capeta, ele descontava sua energia no lombo dos funcionários. Ixi se alguém fazia algo que não gostava. Não gritava, não blasfemava, nada. No outro dia esperasse... Lá estava alguma gozação baixa. Sabia o ponto fraco das pessoas e investigava as particularidades e segredos de cada um para ter o que falar, caso precisasse. Precavido, ele era precavido ainda que a maldade nunca lhe tivesse resvalado. Nunca foi assaltado, não foi traído nem magoado, mas não se sabe como sabia extamamente como perpetrar cada um destes verbos. Era mal caráter. Nasceu com a coisa ruim mesmo. Era armado até os dentes com tentativas de invasão da sua vida, mas não havia escudo que o impedisse de sondar a vida alheia. Traições, escapadas, noites de loucura dos mais competentes empregados. Conhecia todos os traficantes, prostitutas e picaretas. Foram seus companheiros no passado. O cara virara rei, com o conhecimento de plebe. Tinha a aparência de alta classe, mas convivia com os mais baixos escalões da sociedade, que o muniam com todas as histórias necessárias a rebater atitudes que julgasse incorretas ou irreverentes. Só ele podia ser irreverente. E ninguém se atrevia a bater de frente com o monumento que ele estatuiu em torno de si. Só ela. Chegava em casa, ía preparar a janta. Ela estava cansada e ele se convencia de que não havia qualquer submissão nisso. Era gentileza, sou um homem moderno. Todos acreditavam... Como aquele cabra vai aguentar mulher mandando nele? Há! Amor, você não quer ver aquele filme que estreou comigo? Puta que pariu, Alexandre, depois do meu dia agitado de trabalho, você ainda vem querer ver aquela porcaria de arma pra cá, tiro pra lá... Como você aguenta, homem de Deus? Amém, meu bem. Era assim que lidava com o boi Zebu: não retrucava. As mulheres são pior que as mitralhadoras daquele filme que queria assistir. E aquela, meu caro... E com este discurso da preguiça, o mal Macunaíma justificava a inação. Se começasse, era dor de cabeça por muitos dias, amigo. Dele e dela que ía levantar a lebre cada vez que ele quisesse pular da ação das telas para outro tipo de filminho... Mas a irmã da Marisa era madrinha do filho do Geraldo, que era cunhado do Fábio, que saíra da empresa. O Fábio era um cara sempre tranquilo. Pacato, pacato. Mas um dia, "pisou na bola". E errar com aquele cara, é pedir pra sair, parceiro. Fábio nem esperou. Chefe, eu me demito. Não, Fábio, você é um ótimo funcionário. Exijo que fique. Mas, é que patrão, eu... Eu já sei Fábio, sei de tudo. Você quer ou não ficar? Claro! Claro! Mas o senhor, sabe mesmo? O que acha? Está me chamando de bobo? Está me achando idiota, Fábio? Não, imag... Demitido! E riu como o Justos, ao ensaiar para o "Aprendiz". Fábio se zangou e entendeu a peraltice. Engoliu. Deglutiu. Mas vomitou. Ninguém estava no escritório aquele dia. Ele estranhou. Olhou para os lados e imaginou que no mínimo o metrô dos suburbanos parou. Subiu na sua larga sala e ninguém apareceu. Pensou em trocar o papel higiênico dos banheiros aquele dia, mas desistiu porque a rebeldia não devia gerar concessões. Deveria ser punidos. Chegou em casa, cabreiro. Eram mil planos na mente para amanhã. Não deu tempo. Todos sentados na sua sala. Era seu aniversário e nos auges dos seus cinquenta e dois anos, aquele era um acontecimento que ele não mais lembrava. Nem imaginou a surpresa, mesmo porque sabia que ninguém tinha motivos para querer fazê-lo feliz e - justamente por ter se esquecido de pensar nisso, quando ainda dava tempo - aprendera a fazer da sua alegria a desgraça alheia. Aquele era o dia do vice-versa para todos menos para ele, porque a alteração dos fatores resultava em um novo produto que ele desconhecia. Sentiu-se injustiçado. Parecia nu diante de todos. Foi como se sentiu. Engoliu. Deglutiu. E se cagou. Todos sentados com a mulher dele, inclusive o Fábio, que foi quem preparou a festa, "em agradecimento aos prazerosos anos de trabalho". Foi o que constou no cartão. Riam, riam e riam sobre suas histórias desmistificadas por Marisa, no exato momento em que a trinca da porta virou e ecoou um vigoroso "surpresa" e se segurou o "canalha" nas gargalhas, que eram mais polidas, mas não mais sutis. Foi a única vez que sentiu a ironia, que, contudo, muitas vezes fez sentirem. Cinquanta e três anos... O altruísmo tem seu lado sórdido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário