Desembaraço

Finalmente, tive coragem. Publiquei meus textos. Todos aqueles por anos calados no meu HD saltitaram pelo www, para poderem ser criticados e ridicularizados. Haviam sido lidos por amigos da mais alta intimidade que talvez silenciaram um riso de desdêm. Agora estão aí jogados às piranhas, para o apetite coletivo. Não temo mais o embaraço...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Acordava cedo e tramava. Ainda que não houvesse surpresa, ela fingia, só para me fazer feliz. Toda sua vida girava em torno disto: fazer-me sorrir. Não há mais festas. Hoje é um dia difícil. A maior das comemoração, era tê-la ao meu lado e eu sequer sabia disso. Celebrava mais um ano de vida, mas deveria ter festejado cada segundo de sua enorme existência. Agora a vida é difícil. Lembrar é pesado. Sua voz grossa, seu olhar curioso, sua mansidão no peito, amolecido e sofrido pelos percalços da vida faziam de sua presença avassaladora. Ela era a confrontação, em pessoa. Ainda que sua sabedoria popular nem sempre correspondesse as páginas dos livros didáticos, ninguém ousara dizê-la errada. Sempre havia alguma verdade em suas palavras. Era respeitada. Diante de todos, fez-se mito de força, sem contar-lhes que também havia se tornado frágil. Era mulher e, como tal, sabia ter o dom do sofrimento, mas se aquilo doía, ninguém sabia. Era na sua solidão que talvez desse espaço às suas fraquezas. E por isso, cobrava-me valentia. Nós duas haviamos perdido, eu, sete anos de lembranças vagas e ela, trinta e oito da realidade concreta dos corredores de hospital e mais nove meses de sonhos e planos do novo quarto rosa. Enquanto as lágrimas rolavam pelo meu rosto ainda sem rugas, o seu, seco, me mostravam que eu não tinha o direito de chorar. Cada ano que passa a ficha cai mais. Ela se foi.

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