Estava findo aquele. Me resgatei ali, cara? Onde é que estava esta parte? Foi espiritual. Alguém me tocou. Ou eu me toquei. Tenho vontade de rezar de novo. Que animal. Foram sempre ciclos e parece que começava o outro. O mais louco é que era sempre por fatos esdrúxulos. Voltava diferente com idéias transcendentais e loucas de um lavar as mãos no banheirinho de um lugar diferente. Era o incomum e tão-somente que me dava vontade de viver. Estar ali foi algo não programado. Gostava disso nesta vidinha de rotina. Não tinha do que reclamar. Mas agora revivi o outro lado. O lado de quem tinha tudo para reclamar e não reclamava. Nossa! Que delícia esta sensação. As pessoas vão notar. Da outra vez foi a mesma coisa. Mas sempre acham que teve um grande acontecimento. "Tá apaixonada né"? Sim, por mim. Ninguém ousa se amar, sem gastar dinheiro, já percebeu? É como a sociedade aceita que você o faça, sem ser ridículo. É o jeito que isso não soa ridículo para você. As pessoas se importam sim com isso. Ninguém liga com o fato de a sociedade o achar muitas coisas (até, pela gostosa rebeldia e pela necessidade de identificação no meio do comum, quer que o achem diferente em certos aspectos), mas ninguém quer parecer imbecil. Este tipo de degredo social faz mal até aos mais desencanados. E é a mola do capitalismo pessoal. Todos compram para se trazer uma paixãozinha casual. Adquirir um carro novo, gastar com uma blusa bonita ou uma espada rara para enfeitar a mesa da sala faz isso. E se o se amar vem do simples mais barato e satisfatório meio, todo mundo te acha arrogante ou metida e você, por saber disso, acha feio gostar do seu jeito. Foda-se. Não sou mais linda, mais inteligente, mais nada. Só gosto de mim pelo jeito que sou. Me orgulho de ter chegado aqui, como cheguei. Aprecio meu esfoço, as coisas que conquistei. Tinha esquecido que tinha um lado de mim bom. Há tempo senti isso e foi assim, com o trivial, que começou o novo - que agora é velho. Eu só não percebo quando acaba e esse é o problema. A epifania vem de uma vírgula e não de uma frase. Ao menos pra mim. De todo modo, lidar bem comigo não me tira a auto-crítica, mas me mostra minhas idiotices sem que eu zombe delas. Assumo que gosto de fazer coisas toscas às vezes - como falar no telefone com um ser inexistente, quando vejo um cara que me interessa - coisas que não se conta pra ninguém, mas agora contei - e não paro de fazê-las porque são bobas, posto que me fazem feliz. É isso que tem que importar. Minha amiga se mordeu para causar ciúme na namorada. Ninguém que a olha no mundo, bem sucedida, bonita, inteligente e - espante-se - a pessoa mais segura que eu conheço (E sim, tenho bons parâmetros. E não, não vá pensando em contradição porque momento de paixão não é ocasião de se fazer teste de segurança; todos se fazem idiotas, quando apaixonados) vai imaginar aquela mulher se contorcendo para uma vingancinha de prelúdio. E, justamente por isso, Ela me contou com vergonha. Eu fingi normal, porque sabia que eu falava também no telefone com mudos. Me senti à vontade para ser bizarra porque ela também era. E ela era uma das pessoas das quais eu sempre quis ter um pouco. Não com inveja, mas com admiração de amiga. Ela causava desconforto nas pessoas, quando chegava. Era imponente, e eu ria desta imposição dela perante o mundo, porque se escondia toda sua força atrás da porta corada de rosa, naquele exato instante (este pensamento é um que ela também deve ter). Ali a toda moça era a babaca, a se deixar marcas. Eu achei o máximo, porque me sentia assim às vezes. Éramos duas trouxas e aprendemos a conviver com isso. Ela sabia que o contraciúme daquilo ía fazer bem para o seu ego. E eu, da mesma forma, sabia que a conversa com um interlocutor criado à minha moda também me dava instantes de riso bons. Eu desvairada atrás de uma p... a falar com o além e ela atrás da sua b... a fazer-se roxos. Cada um na sua. Puta era isso de novo. Eu passei a me respeitar novamente, depois do período de reclamação, que me motivou a autodestruição da minha coisa toda. Era exatamente aquele algo que fazia a minha marca sempre que se referiam a mim. Eu não era mais isso. Eu não fora mais eu por um bom tempo, perdida no que queriam que eu fosse. E conviver comigo, como se convive com um amigo - sem deixar de ficar puto ou triste com ele, algumas vezes - foi a melhor fase da minha vida. Não fazia absolutamente nada para chamar atenção, mas as coisas aconteciam com um frenesi e intensidade únicos. Foi à época de encanto diante de mim. Minha vida foi dura e eu merecia sim ser vista com propriedade. Eu era especial, porque assim Deus fez minha história. Adotada. Órfã. Sobrenaturalmente lúcida, no caos, sem deixar de desvairar ao chão, sempre que podia. Era isso o legal de mim. Quis fazer uma viagem, mas sozinha, de novo. Eu ía para lá ver ele. Mas ía primeiro curtir minha vibe em algum outro canto do mundo. Só. Ía começar a dar azo a esta fase roots. Eu precisava retomar este ciclo. Obrigada.
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