Entrou. Pediu-lhe um pouco de espaço. Conseguido, escapou do seu laço, sem que ele pudesse sequer perceber. Foi embora, sem qualquer embaraço de não querer mais o ver. E ele ali a chorar cada minuto do não ter dito, sem entender o veredicto, relendo mil vezes o adeus escrito, balbuciava possibilidades soltas. Eu lhe lancei a única verdade, bem assim a queima roupa: "meu caro, é porque fostes à bancarrota". Não adiantava envergonhar-se da própria incipiência, convencer-se de uma descência que ela não tinha. Era vadia e como tal trocava o falso prazer pelo dinheiro, que lhe fazia aflorar o único sentimento verdadeiro que por ele nutria: ganância. Convencia-se ele, todavia, na sua arrogância vazia que ela o queria. Deixe crer. Eu sei, contudo, que foi seu vintém que fez o seu desdém e repúdio transmutar-se em amor. E agora que não havia mais nenhum trocado ela deixou um breve recado de um findo amor. Não se morre dele, mas se vive, já dizia o grande ourives que Machado lembrou. E ela escreveu em um papel improvisado um trecho de um verso roubado de um livro qualquer daquela enorme bancada. Ele lia e relia em feição amargurada aquela triste entoada de final de oração. Cada palavra foi escrita sem grande entusiasmo, o que explica o pleonasmo que a safada nem fez atenção: "Amei o amor, mas findou. PS: As jóias ainda estão no Banco?". Ela era analfabeta e, ao menos a sentença saiu correta, o resto ele fingiu estar em branco. Mas mesmo o epilogo era de frase feita, ela seguiu a receita de um contexto de real amor. Ali, não havia nenhum sentido, mas ele procurava um bramido, ou ao menos, algum sussurro de dor. Talvez um sinal miúdo de arrependimento, que fizesse o seu sofrimento contrair em copas. Foi relendo aquele pequeno remendo que não encontrou nenhum sentimento que não o apego às notas, e, finalmente, pode enchengar a importância que lhe tinha o penhor. Por quê? Para que pedir licença, se sabia do desafortunado destino? Se seria curta sua presença, não lhe deixasse qualquer remanescência deste desatino. Levasse jóias, moeda, seus bens. Com estas memórias, a queda é a única coisa que ele mantém. Foi por vingança que ela deixou tudo que ainda havia lá. Foi a lembrança que ela o fez ter de encarar. Doeu. Enquanto a voz ainda o nome dela chama, ele sossega sua gana com o dom da enganação. Todo mundo aprende com a decepção.
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